11/07/2016 às 09:11
O que escrever?

O que escrever quando você não existe mais?
Quando você foi esquecido?
Quando já não tem mais cordão umbilical?
Quando seu Deus se esquece dos famintos?
Esquece-se dos enfermos?
Esquece-se dos que lhe chamam em oração?
O que escrever?
Quando você não se importa mais...
Sua bombinha de salbutamol está cheia
Seu descongestionante nasal está no bolso
Parou de fumar e beber
Parou de sentir dor no estômago
Parou de ler e escrever
Cansou dos programas de televisão
Já está achando chato ler os colunistas feras
Os sábios já lhe encheram
O sorriso sempre está no lugar certo
Você tem todas as músicas que quiser
Pode dormir só quando realmente sentir sono
Pode voltar a fumar e beber
É um herói
E um vilão
Pode ser triste e mesmo assim palhaço
Sabe o que quer
Mas tanto faz...
Pode rir e pensar
E pensar é doce
O que escrever quando se é livre?
Sem dinheiro
Sem bens materiais
Sem contas pra pagar
Nem filas pra ficar
Quando não se precisa passar em concursos
Nem agradar ninguém
Quando se pode chorar
E se pode rir
Quando um médico e um mendigo são iguais
Mas o mendigo é livre
E tem brilho nos olhos
O que escrever quando todos são corruptos
Interesseiros
Grosseiros
Idiotas...
E se seus filhos são seus imitadores de carteirinha (desses sujeitos)
Quando o que você enxerga são vermes
E vazio
Quando você abre os olhos e vê mentira e dissimulação
Quando você vê lideres sendo ruins demais
O que escrever quando não faz sentido
O dinheiro...
O casamento...
O trabalho...
Os sonhos...
Quando devemos escrever?
Quando se não quer ler...
Quando não se tem mais revolução...
E quando sorrisos com aparelhos
Valem mais que um sorriso torto
Quem somos nós afinal?
A igreja que frequentamos?
O cargo?
A roupa?
O carro?
O que somos afinal: lixo!
E o que escrever quando precisamos tomar remédio...
Pra aguentar...
Temos que encher a cara pra dormir...
Temos que machucar pra saciar a ira...
O que escrever se nos sentimos sozinhos?
Perdidos?
Sem céu, sem inferno, sem pai, sem mãe...
Sem amigos, sem paraíso...
Que bom que estão bem!
Que bom mesmo!
E um dia acreditamos que o mundo era doce
E um dia acreditamos que a poesia era sincera
E um dia acreditamos que tudo valia a pena
Acho que vale pelos nossos filhos
E os filhos dos filhos
E pelos animais e pelo resto
Rastro
E quem sabe vale a pena para poder amar o outro
E morrer pela sua felicidade
E quem sabe daí, você terá o que escrever.
E eu?
Madrugadas e poesia!
Esse sou eu...
Fábio dos Santos Júnior

 

 

 

 

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