14/08/2015 às 09:02
TEMPOS DIFÍCEIS

Nestes tempos últimos, em que espontaneamente tenho me recolhido ao meu âmago, embreando-me à exaustão em minhas análises, reflexões, questionamentos, com mais ressábios que esperanças, concluo, finalmente, que melhor que o silêncio neste caso é a palavra. Que palavra ou palavras podem resumir este momento, este contexto? Penso que sejam: vergonha, revolta, compaixão, compromisso.
Sinto-me envergonhada ao olhar a realidade em sua profundeza e perceber que o progresso das letras, das ciências, das artes, não foi acompanhado pelo progresso do ser humano e que já não é mais possível distinguir progresso de retrocesso, humano de inumano, normalidade de loucura, possuidor de coisa possuída, corruptos de corruptores.
Caracterizar o momento presente significa encarar uma doída lista: desamor, falta de ética, ausência de valores, desejo de poder, força do dinheiro, consumismo sem limites, exibicionismo, atrocidades, violência desenfreada, corrupção e um mar de lama que as vezes chega nos levar a questionar o sentido da vida, o certo e o errado, a normalidade e a loucura. Até que ponto alguns estão dentro da normalidade e outros dentro da loucura?
Qual o sentido dos avanços tecnológicos, se não houve avanços para transformação do ser humano em ser mais humano, fazendo-o cada vez mais só, mais egoísta, mais vazio, inumano? De que serve o progresso nas artes, nas ciências, nas letras, o maravilhoso mundo da internet, se caminhamos para a destruição do planeta, se as pessoas não são mais felizes, se não eliminamos a fome, se continuamos com imenso contingente de miseráveis?
A reificação do consumo, do poder e do ter é tão extrema que o ser humano já não sabe mais se é possuídor ou coisa possuída. Quem tem dinheiro, quer mais dinheiro, mais poder.Tudo sem limites. Escravizou-se na busca do dinheiro. Demonizou-se. A corrupção passou a impregnar milhares de hipócritas ate as entranhas, impregnou-lhes a alma, as veias, as víceras. O dinheiro, o lucro fácil colocou tuchos em seus ouvidos, viseiras em seus olhos e lama em suas mãos.
Estamos aí – no fundo do poço. Brasil aviltado, maltratado, sangrando. Corrupção solta, gracejando, dando gargalhadas, a espera de mais corruptos e corruptores.E, o que é de pasmar, é que hoje, quem ocupa o centro do cenário são os DELATORES.
Quem é o delator? É o pior dos seres humanos. No meu tempo de estudante, tinha-se asco de “dedo-duro”. Hoje o delator é premiado.(nem contemos isto às criancinhas). E uma cambada de deputados safados interrogando-os, fazendo pose de éticos, mocinhos que querem prender bandidos, quando na verdade podem ser chefes da bandidagem.
E estes são os nossos representantes, os nossos líderes. Culpa da nossa geração, pais, professores, líderes políticos engajados, que perdemos tempo com coisas inúteis e não construímos lideranças por décadas. Os que ocuparam o espaço são os que estão aí, perigosas eminências pardas, latindo para carregar consigo os desavisados, pensamentos encharcados de senso comum que foge ao racional, ao bom senso. E assim, no vazio de lideranças, continuamos elegendo Cunhas, Bolsonaros, etc.
Vergonha sim. Como olhar os jovens sem sentir vergonha?Que país nossa geração entrega às gerações futuras? Revolta também. Mas não dá pra não ter compaixão e compromisso em reconstruir o país, banir a corrupção, fazer a reforma econômica e política de verdade e não de mentirinha, escrever outra história, tudo passando pela formação de novas lideranças. O novo precisa ter o compromisso de todos, deve estar acima de partidos políticos, banindo os oportunistas. Esperança, coragem e luta sempre.
 

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