19/05/2016 às 14:32
ADEUS, CAUBY...


“Pare o mundo que eu quero descer” suplica o Raul. Dias há em que dá uma vontade grande de gritar e de descer do mundo, desistir dele. Não é fácil olhar o mundo assim, tão feio, tão feio, tão triste, tão triste; Ver o ser humano assim, tão tolo, tão tolo, tão torpe, tão torpe.
E o tempo passa, e vão-se os meses, e vão-se os anos, e fecham-se séculos. E a ciência avança, avança, avança maravilhosamente, enquanto a doença, a fome, a miséria avançam, avançam, avançam avassaladoramente; E a desesperança multiplica-se desesperadamente; E os sonhos, as utopias, rotos, murchando, secando, morrendo, fatalmente.
E as crianças, e os jovens, e as rosas e os bem-te-vis? Ah...As crianças, e os jovens, e as rosas, e os bem-te-vis?! Há as crianças, e o jovens, e as rosas e os bem-te-vis... e há a necessidade de fazer-se a catarse.
Aí me dá uma dor danada quando fico sabendo que o morreu Cauby Peixoto, que calou-se o homem, que silenciou-se para sempre a voz canora. Lembro algumas músicas gravadas por ele e fico a perscrutar: Como as coisas bonitas são tão pouco mostradas. Olhemos, sintamos, deliciemo-nos com a magia da poesia embalada pela voz humana: ”Conceição/Eu me lembro muito bem/Vivia no morro a sonhar/com as coisas que o morro não tem./Só eu sei/que tentando a subida desceu/E agora daria um milhão/para ser outra vez Conceição”.(Jair Amorim) “ Bastidores/Cantei, Cantei/Jamais cantei tão lindo assim/E os homens lá pedindo bis/Bêbados e febris a se rasgar por mim/Chorei, chorei/ Até ficar com dó de mim”.(Chico Buarque)
As músicas de Cauby não são apenas de caráter romântico, sutilmente mostra um caráter social, mencionando realidades:”Canta Brasil/ As selvas te deram nas noites teus ritmos bárbaros/E os negros trouxeram de longe reservas de pranto.” (Alcyr Pires)
A voz humana, o mais belo instrumento musical existente, é capaz de suscitar a alegria, serenar espíritos, construir a paz, em sublime enlace de ritmo e poesia. Cauby conseguiu isto, fazer a catarse, do natural ao sobrenatural, do comum ao exótico, da dor suprema ao enlevo da felicidade e da ternura. Não é outra senão esta a função da arte e da preservação cultural, fazer a catarse, transformar o brutal em real possível, viável, mesmo inédito.
Cada artista que se vai é uma perda grande, grande. Se amássemos e divulgássemos mais a beleza da arte, não ficaríamos apenas na visão medonha da paisagem, teríamos coragem e tenacidade para modificá-la e diferentes formas de olhar e perceber, reconstruindo a esperança e reencantando-nos, não ficando apenas na visão do casebre, mas percebendo estrelas no chão:
“Chão de Estrelas/Nossas roupas comuns dependuradas/na corda qual bandeiras agitadas/pareciam um estranho festival/Festas dos nossos trajes coloridos/a mostrar que nos morros mal vestidos/é sempre ferida nacional./A porta do barraco era sem trinco/ mas a lua furando nosso zinco/salpicava de estrelas nosso chão./Tu pisavas nos astros distraída/ sem saber que a ventura desta vida/é a cabrocha, o luar, o violão.”(Sílvio Caldas).
Adeus, Cauby! Tu vieste ao mundo para fazê-lo mais bonito, e quero sempre cantar contigo:”Eu amo tanto enfim/Que as vezes sinto em mim/Que todo o amor do mundo é meu.”
Continuemos...Existem as crianças, e os jovens, e as rosas e os bem-te-vis.
Guiomar Terra Santos 18-5-2016.
 

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