01/03/2018 às 10:31
CHUVA DE VERÃO

Letra e música: João Almeida Neto

Quando estas nuvens se esparramam pelo pampa
E em gotas claras se derramam pelo chão
Apagam o pó dos pátios pobres da campanha
E apagam as brasas dessas tardes de verão.

Parece até que cada gota desta chuva
Vem como lágrimas do céu para regar
O peito triste dos que choram como as nuvens
Sem ver a flor do coração desabrochar.

Por isso gosto dessas chuvas veraneiras
Que vêm e chovem e se somem sem alarde
Para levar a outros campos e outras vidas
A paz molhada que espalharam pela tarde.

E como chegam vão-se as tardes e vão-se as chuvas
E vão-se os dias, vão-se o tempo e as ilusões
E vamos nós em cada sonho que se apaga
Como se avida fosse chuva de verão.

João de Almeida Neto, conhecido como “A voz do Rio grande”, é um dos mais premiados intérpretes do regionalismo gaúcho. É um poeta instrumentista e cantor, cujos trabalhos, contextualizados em nosso Rio Grande, tematizam a vida, o amor, a cidade e o campo, em linguagem de nossa gente, de forma simples e profunda, onde constata e questiona, enaltece e denuncia a realidade do pampa.
Na leitura atenta do poema em questão, podemos perceber que o autor não é um amador em termos de literatura. A estrutura, a forma do poema mostram isso. São quatro estrofes distribuídas em quartetos. Doze sílabas poéticas em cada verso, com idêntico esquema de rimas ABCB em todas as estrofes.
Num perfeito casamento entre letra e música, vamos tendo a sensação de que vamos acompanhando o bailadodas nuvens, junto com os acordes de um violão, cujo repicar delicado das cordas parecem bater-nos na alma como gotas de chuva.
O poema é em si, uma comparação da vida humana com chuvas de verão, aquelas chuvas rápidas, que acontecem inesperadamente ou não, algumas vezes forte, outras, leves, mas que não são duradouras, e que servem para refrescar o ar, atenuar o calor, amenizar o martírio dos bichos e das gentes. Esta imagem intensa de tarde de verão encontra-se condensada na metáfora “Apaga as brasas destas tardes de verão.” (verso 4).
O poeta sai da descrição da temporalidade com que o poema se inicia, “Quando estas nuvens se espalham pelo pampa, e em gotas claras se derramam pelo chão” (versos 1 e 2) para fazer referência ao espaço – o chão do pampa, registrando com grande sutileza a realidade social deste pampa – os pátios pobres da campanha imersos em pó, reforçando a imagem desta paisagem pelo uso da Aliteração, ou seja, o uso em sequência do fonema “p”, no 4 verso: “Apagam o pó dos pátios pobres da campanha”, como um toque a bater dentro de nós”.
Na sequência, a descrição de tempo e espaço dá lugar à descrição do humano ser, cujo peito é triste e também pobre. Triste porque chora como as nuvens, e pobre porque ficou seco, não foi regado,não floresceram os sonhos, a flor não desabrochou: “Sem ver a flor do coração desabrochar” (verso 8).
Na terceira estrofe, eleva-se o tom da música e chegamos a sentir um misto de satisfação e melancolia. Em tom confessional, o poeta diz gostar das chuvas veraneiras, que vêm e chovem, cumprem sua missão, e sem alarde, partem, solidárias, vão molhar outros campos, outras vidas.
A última estrofe condensa toda a comparação da vida com chuva de verão, pois na vida tudo é fugaz, temporário; a própria vida é uma passagem e tudo como vem, também se vai: “Vão-se as tardes, vão-se as chuvas, vão-se os dias,vão-se o tempo e as ilusões” (versos 13 e 14) como nós, vamos nos consumindo, em cada sonho que vamos deixando apagar-se.
Cultivar os sonhos, regá-los, mesmo com chuva de verão, é condição de vida, e condição para que a flor desabroche no coração e o coração faça-se flor. Quando se acabam os sonhos é a própria vida que se acaba.
Por isso gosto desta Chuva de verão, e convido-os a ouvirem e deliciarem-se com esta belíssima composição.

Guiomar Terra Batú dos Santos - 28-02-2018

 

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