08/03/2018 às 11:45
GURI

GURI
Julio Machado da Silva Filho
João Batista Machado

Das roupas velhas do pai
Queria que a mãe fizesse
Uma mala de garupa
Uma bombacha e me desse.
Queria boina alparcatas
E um cachorro companheiro
Pra me ajudar a botar as vacas
Com meu petiço sogueiro.
Hei de ter uma tabuada
E o meu livro “Queres ler”
Vou aprender fazer contas
E algum bilhete escrever
Pra que a filha do seu Bento saiba
Que ela ê meu bem querer
E se não for por escrito
Eu não me animo a dizer.
Quero gaita de oito baixos
Pra ver o ronco que sai
Botas feitio do Alegrete
Esporas do Ibirocai
Lenço vermelho e guaiaca
Comprados lá no Uruguai
Pra que digam quando eu passe
Saiu igualzito ao pai.
E se Deus não achar muito
Tanta coisa que eu pedi
Não deixe que eu me separe
Deste rancho onde eu nasci
Nem me desperte tão cedo
Do meu sonho de guri
E de lambuja permita
Que eu nunca saia daqui.
Guri, música considerada um clássico do Nativismo gaúcho, foi vencedora, em 1983, da Califórnia da Canção de Uruguaiana, na interpretação do magnífico Cesar Passarinho. Em sua homenagem, foi criado o Troféu Guri, pela Rádio Gaúcha, em 1998.
Jorge Luiz Borges diz que “o escritor escreve o que pode, mas o leitor lê o que quer”. Assim, atrevo-me a interpretar a letra da música Guri, com minha percepção de leitora, com o diálogo que meu eu estabelece com o texto.
Comecemos então perguntando-nos: Quais são os sonhos, os desejos de um menino que vive no meio rural? Seriam iguais ou diferentes dos sonhos de um menino do meio urbano?
Acompanhando o que nos diz o GURI, vamos ver que não pede muito: Quer uma mãe e, que esta mãe confeccione, mesmo das roupas velhas do pai, uma bombacha e uma mala de garupa para que possa apresentar-se como um gauchinho.O tempo passa, cresce o menino e com ele os sonhos crescem. Agora quer boina, alparcatas, um petiço para seu oficio, um cãoseu, companheiro.
E o menininho quer cidadania: “ler, escrever, fazer contas”. Quer dizer do seu amor à filha de seu Bento. Tímido, falta-lhe coragem: “se não for por escrito eu não me animo a dizer”. A arte alimenta a alma, dá completude, significado à vida. E o nosso guri quer arte: “Quero gaita de oito baixos pra ver o ronco que sai”.
Não seria humano se assim não fosse: o guri agora quer uma indumentária bonita, quer se enfeitar, quer “botas feitio do Alegrete, esporas do Ibirocai, lenço vermelho e guaiaca importados do Uruguai”.Tudo para quê? Para ficar igualzito ao pai.
Amarremos, então, os sonhos do Guri, como quem amarra um ramalhete de flores, pois sonhos de menino são sempre flores. Quais flores? Mala de garupa, bombachas, cão, petiço, boina, alparcatas, lenço vermelho, guaiaca, botas, esporas. Mas um guri quer uma mãe, um pai em quem se espelhar. Um guri quer ler, escrever bilhetes claros, completos, legíveis. Um guri quer aprender a fazer contas para resolver problemas do quotidiano, professoras e professores!
Os meninos e as meninas do campo e da cidade não podem passar anos na escola e não aprender a somar, dividir, multiplicar, diminuir. Não podem passar anos na escola e não aprender a escrever um parágrafo completo, com clareza de ideias!
Os meninos e as meninas precisam de arte! Os meninos e as meninas preciam desenvolver o sentimento de pertença, de amor ao chão onde nasceram. E, sobretudo, os meninos e as meninas precisam que não lhes matem os sonhos, que deixem seus sonhos florescerem.
Esta é a minha interpretação. E a sua? Qual a sua interpretação desta magnífica Calhandra de Ouro?

 


 

Comentários

Nenhum Comentário. Deixe o seu comentário!

Mais posts de Guiomar Terra dos Santos