28/03/2018 às 10:42
NEGRO BONIFÁCIO

Guiomar Terra Batú dos Santos

Num comércio de carreira
Caiu o negro peleando
Para que a morte sotreta
Se espoje na carne preta
Sem perguntar até quando?
Caiu o negro peleando...

Era tão linda a Tudinha
De enfeitiçar qualquer um
E aquele negro muçum
Que encanto será que tinha!

Como entender seu achego
Tinha nas mãos o Nadico
Tanto moço branco e rico
E aquele caso com um negro!

Em casos de valentia
Tem sempre um negro no flanco
Bonifácio fosse branco
Nem história se teria.

Caiu o negro peleando
Para que a morte sotreta
Se espoje na carne preta
Sem perguntar até quando?

Bonifácio teus direitos
Permanecem obscuros
Enredados nos impuros
Caminhos dos preconceitos.

A música “Negro Bonifácio” foi lançada na VI Tertúlia de Santa Maria. É uma letra de Antônio A. Ferreira e Mauro Ferreira, musicada por Luiz Bastos, para mexer com nosso coração no canto de um passarinho, um canário de nome Cesar Passarinho.
O poema parodia o conto “O Negro Bonifácio”, de Simões L. Neto, 1912, onde o triângulo amoroso entre Tudinha (tudo de bom), Bonifácio (boni = qualidades que a faziam cativa) e Nadico (pendores insignificantes) serve de pretexto para o conto a constituir-se um documentário sociológico onde, mesmo de forma velada, mostra a realidade social dos nossos pampas: a supremacia do branco sobre o negro, ideologia, cor, raça, gênero.
No poema, os autores usam outro mote: Mataram o Bonifácio. Aqui, o registro da realidade social se escancara em forma de denúncia do preconceito social e racial, de clamor, de louvor e piedade.
A composição mostra um negro valente, lutador: “Caiu o negro peleando”. Pelo que mesmo lutava o negro? Era pelo amor de Tudinha? “Era tão linda a Tudinha de enfeitiçar qualquer um”. Teria ele direito à Tudinha? Afinal, “Aquele negro muçum, que encanto será que tinha?”. Havia candidatos melhores: “Tanto moço branco e rico e aquele caso com um negro?”. Era apenas uma reação, uma revolta do negro à supremacia branca? A totalidade do poema nos leva a essa conclusão, não é uma canção simples; todo o conteúdo é metafórico, com personagens e expressões carregadas de simbologia, fazendo do texto, verdadeira obra de arte.
Dentro desta grande metáfora que se constitui o texto, o negro lutou muito contra os brancos enfeitiçados pela beleza da Tudinha. Todos os brancos, contra um só negro. Se “Bonifácio fosse branco, nem história se teria”, pois natural seria ter ou não amores, paixões, desejos realizados. Seria isso? Mais. Muito mais, pois “Caiu o negro peleando/Para que a morte sotreta/Se espoje na carne preta”. Até quando? Até quando os negros lutarão contra os punhais do preconceito racial e social? Até quando a cor trará dor de amor, limitará a paixão, esconderá a exclusão sob a falácia de liberdade e igualdade. Até quando seguirão silentes ou silenciados? “Bonifácio teus direitos/ Permanecem obscuros/ Enredados nos escuros/ caminhos dos preconceitos”. Até quando? Até quando? Preconceitos e conceitos de superioridade farão com que a morte sotreta continue consumindo mulheres, índios, gays, Bonifácios, Marielles?

 

 

 

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