18/04/2018 às 17:00
O MENINO QUE ESCREVIA VERSOS

Mia Couto

- Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse criminoso. O médico perguntou:
- Há antecedentes na família? – Não - Respondeu Dona Serafina. Tudo corria sem mais, mas começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejar, a autoria do feito: - São meus versos, sim.
O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais. Pois o rapaz se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: Mariquice intelectual? Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai exigiu que ele fosse examinado: - Urgia por cobro daquela vergonha familiar.
O médico escutou com enfado e dirigiu-se ao menino: - Dói-te alguma coisa?
- Dói-me a vida, doutor.
- E o que fazes quando te assaltam estas dores?
- O que melhor sei fazer, excelência. Sonhar.
Serafina repreende: Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe por quê? Perto o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonhos. O médico custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventava sonhos desses que já nem há. O doutor o interrompeu:
- Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clínica psiquiátrica.
A mãe, em desespero, pediu que o médico desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho de versos, a ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta.
Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendidos. O médico sisudo, taciturneou: o miúdo teria por acaso mais versos? – Continuas a escrever?
- Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida – disse, apontando um novo caderninho – quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. O menino carecia de internamento.
- Não temos dinheiro, fungou a mãe entre soluços. – Não importa - respondeu o doutor. Ele mesmo assumiria as despesas e seria ali mesmo na sua clínica.
Hoje, raramente se encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta no quarto onde está internado o menino. Quem passa, pode ouvir a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. (Em o Fio das Missangas)
Convido à leitura da obra de Mia Couto, escritor moçambicano considerado um dos mais importantes ficcionistas da língua portuguesa, autor de mais de 30 livros, entre poesia e prosa. Com extrema originalidade de linguagem e estilo, Mia Couto expõe o drama de Moçambique pós-independência.
No conto acima, temos o drama do menino martirizado pelo preconceito ao ter seu talento confundido com loucura. Um menino cuja vida real lhe doía: “dói-me a vida doutor”. Aí, fazia o que mais sabia fazer: sonhar. “O que faço não é escrever, doutor: Estou sim, a viver”.
É preciso sonhar para que a realidade se torne menos brutal. Pelo sonho, germinamos a esperança de um mundo melhor. Pelo sonho, podemos suplantar conflitos, dores, desesperanças e sorver a delicia de viver. Só quem sonha, transforma realidade.
Pensando bem, o poeta é alguém um tanto louco, pois é um ser que vê luz de pirilampos em dia ensolarado, que sempre tem música na alma, que é louco por viver e por dizer a vida na poesia. Conforme Quintana, “A poesia é uma loucura lúcida”.
Continuemos como o menino, escrevendo e lendo, verso a verso, o próprio coração, no seu caderninho: “um pedaço de vida”.

 

 

 

 

 

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