03/05/2018 às 15:53
MANHÃS

Guiomar Terra Batu dos Santos

Nenito Sarturi
Um sabiá no seu galho
Uma gota de orvalho
Um gritar de Tarã.
Que me importa o sereno
Se meu mundo é pequeno
Tenho a terna manhã.

Tenho o coice do arado
O mugido do gado
O quero-quero gritão.
Que me importa o suor
Quero o mundo melhor
E na mesa mais pão.

Tenho um raio de sol
Tenho um riso guri
Não me falta mais nada
Nesta calma alvorada
Para andar por aí.

Se eu não tenho mais tino
Se meu mundo é menino
Que me importa afinal
Que me importa este choro
Se me resta o consolo
De um clarão matinal.

Se as manhãs do meu tempo
Já não tem mais alento
Vou aguentando o tirão.
Vou curando as feridas
Nas manhãs desta vida
Que rebrota do chão.

Poema de estética perfeita, composto de versos Hexassílabos (seis sílabas poéticas), distribuídos também em estrofes de seis versos – Sextilha, seguindo o mesmo esquema de rima em todas as estrofes: ABCDDC, exceto estribilho.
Conteúdo e estética, em completa sincronia, constituem um canto lírico de contemplação e sonho, construído através de imagens sensoriais, que retratam a beleza de uma manhã campesina, comparando-a à vida, onde tudo rebrota do chão.
A vida não é um paraíso, é árdua e a ninguém poupa: “Tenho o coice do arado”, “Que me importa o suor”, “Eu não tenho mais tino”, “Vou curando as feridas”, “As manhãs do meu tempo já não têm mais alento“ (imagens táteis). As imagens auditivas trazem o despertar para a vida, “o gritar de tarã”,“o mugido do gado”, “o quero-quero gritão”. Tudo, no entanto, é suavizado pelas imagens visuais de cada amanhecer; quando “o raio de sol” acende a luz da esperança, ilumina “o sabiá no seu galho”, torna cristalina “a gota de orvalho”, enche de magia “o riso guri”.
Ante a beleza da manhã, nada mais faltaria, desde que o poeta alcançasse o grande sonho: “Quero um mundo melhor, e na mesa mais pão”. Aí resumindo-se a grande metáfora , o mundo novo, a nova manhã.
Gosto muito de ouvir Manhãs, na voz de Miguel Marques. Ouçam-na e deliciem-se.


 

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