17/05/2018 às 16:22
HÁ ESTRELAS NO CHÃO

Guiomar Terra Batú dos Santos


“Pare o mundo que eu quero descer”, suplica o Raul. Dias há, em que dá uma vontade grande de gritar e de descer do mundo, desistir dele. Não é fácil olhar o mundo assim, feio, triste; ver o ser humano assim, tão tolo, tão torpe.
O tempo passa, e vão-se os meses, e vão-se os anos, e fecham-se séculos. A ciência avança, mas, paradoxalmente, a doença, a fome, a miséria avançam mais, muito mais. E a desesperança multiplica-se. E os sonhos, as utopias, ficando rotos, murchando, secando, morrendo, fatalmente.
E as crianças, e os jovens, e as rosas e os bem-te-vis? Há as crianças, e os jovens, e as rosas e os bem-te-vis...e há a necessidade de fazer-se a catarse. A necessidade de que se estabeleça o diálogo com o mundo, um diálogo entre sonho e realidade, entre o medonho e o belo, como a Bela pode encontrar beleza na Fera.
Ocorre que, de repente, fui tomada de uma nostalgia, ao lembrar que neste 15 de maio, fez dois anos da morte de Cauby Peixoto. Sim, faz dois anos que calou-se o homem, que silenciou-se para sempre a voz canora. Relembro algumas músicas gravadas por ele, e fico a perscrutar: Como as coisas bonitas são tão pouco mostradas e tão pouco apreciadas.
Olhemos, sintamos, deliciemo-nos com a magia da poesia embalada pela voz humana: Conceição –“Eu me lembro muito bem/ Vivia no morro a sonhar/ com as coisas que o morro não tem. /Só eu sei/ que tentando a subida desceu/ E agora daria um milhão/ para ser outra vez Conceição”. (Jair Amorim); Bastidores – “Cantei, cantei/ Jamais cantei tão lindo assim/ E os homens lá pedindo bis/ Bêbados e febris a se rasgar por mim/ Chorei, chorei/ Até ficar com dó de mim”. (Chico Buarque)
Nesse diálogo, com a realidade permeado pela arte, dá, ainda, para irmos na carona de Cauby que, sutilmente, evoca o social: Canta Brasil – “As selvas te deram nas noites teus ritmos bárbaros/ E os negros trouxeram de longe reservas de pranto”. (Alcyr Pires)
Se amássemos e divulgássemos mais a arte, ampliássemos o acesso a ela, poderíamos, sim, multiplicar a sensibilidade, diminuir a violência que está a cegar os humanos, não ficando apenas na visão do casebre, mas percebendo estrelas no chão: Chão de Estrelas – “Nossas roupas comuns dependuradas/ na corda qual bandeiras agitadas/ pareciam um estranho festival/ Festas dos nossos trajes coloridos/ a mostrar que nos morros mal vestidos/ é sempre ferida nacional./ A porta do barraco era sem trinco/ mas a lua furando nosso zinco/ salpicava de estrelas nosso chão./ Tu pisavas nos astros distraída/ sem saber que a ventura desta vida/ é a cabrocha, o luar, o violão”. (Sílvio Caldas)
Os artistas vieram ao mundo para nos ajudar a pensá-lo e a amá-lo. Amá-lo é amar a vida, as gentes. Assim, quero cantar sempre com Cauby, “Eu amo tanto enfim/ Que às vezes sinto em mim/ Que todo o amor do mundo é meu”.
Continuemos...Existem as crianças, e os jovens, e as rosas e os bem-te-vis.








 

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