25/05/2018 às 16:04
LIRA DA NOITE

Guiomar Terra Batu dos Santos

Cai a tarde na imensidão do campo
O sol se vai e a tristeza invade
O inverno vem das cinzas dos cerros
Plantar nos corações silêncio e saudade.

Se foi o tempo de luz e calor
Só resta o frio a maltratar viventes
Maltrata o pasto envidraçado de geada
E de tristeza o coração da gente.

A lua ilumina este ar parado
Já é madrugada principio o chimarrão
A Estrela-d’alva é uma espora que sangrando a noite
Acende a aurora e os braseiros do fogão.

É longa a espera pra raiar o dia
E tanta coisa vai se consumindo
Mas a esperança buena companheira
Um outro tempo e outros sóis vai construindo.

Se há noite e há frio, há sonhos e anseios
Na primavera que um dia virá
Parindo flores nos beirais das sangas
E adoçando pitangas a araçás.

Lira da Noite é uma letra de Jorge Enio Pinto dos Santos, com música de Wilson Paim, e por ele gravada em CD que leva o mesmo título da música: Lira da Noite.
Música incluída à categoria nativista gaúcha. A forma de abordagem do tema e linguagem, fazem dela uma composição lírica, onde, em posição contemplativa, o autor observa a paisagem em uma noite de inverno no RS.
O poético se intensifica pela presença de inúmeras figuras de linguagem. Tudo traduzido pelo intenso uso de prosopopeias:“A tarde cai”, “O sol se vai”, “a tristeza invade”, “O inverno vem” “plantar nos corações”, “a Estrela d’alva sangrando a noite”, “a esperança construindo sóis”, “a primavera parindo flores”.
Espaço e tempo se misturam. A própria natureza opera percursos, transformações, meditações. Os cerros perdem o calor do sol; o fogo, agora, é cinza. É o inverno, o frio que maltrata mais intensamente à noite. A lua ilumina o “ar parado” – geada grande e certa. A prosopopeia alia-se à metáfora: “o pasto envidraçado de geada”, “A Estrela-d’alva é uma espora”.
É madrugada, anuncia a natureza – a Estrela-d’alva, Estrela da Manhã, Segunda Lua, sangra a noite que, sangrada, vai sucumbindo. Da sangria da noite, derrama-se o calor, que acende a aurora vermelha e os braseiros do fogão.
Como reage a natureza, reage o poeta e “principia o chimarrão”. Em antítese ao estado de contemplação inicial, voltam os sonhos e anseios, e a esperança trará a Primavera, as flores, as doces pitangas e araçás.
O poema é em si, a metáfora da vida humana, onde tempos difíceis são superados pela esperança, os sonhos e os anseios e, assim, outro tempo, outros sóis.
Parabéns ao Jorge Enio, meu esposo! Foi a primeira letra que escreveu.


 

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