30/05/2018 às 10:43
RETALHOS TANTOS

Sonho a sonho, fio a fio,
Trama feita no tear.
Tecido à espera da dor...
Vem tesoura pra cortar.
Modela, mão ardilosa,
Do todo, parte preciosa,
Só retalhos vão sobrar.

Mas há outros retalhos tantos
Nesse mundo de meu Deus!

Se juntado com afeto,
Costurado com cuidado,
O retalho é um remendo
Que num trapo roto, usado,
Pode voltar a vestir
Aqueles tantos viventes
Párias que a vida excluiu.

Mas há outros retalhos tantos
Nesse mundo de meu Deus!

Não são poucos, pouca gente
A viver por teimosia,
Se alimentar de migalhas,
Por horizonte, muralhas,
Sem ter arte, sem ter pão,
Pois na partilha da vida,
Como retalho: sobrou.

Mas há outros retalhos tantos
Nesse mundo de meu Deus!

Continente a continente,
A luta mais necessária,
É que não mais se permita
Que os humanos sejam restos,
Apêndices, obsoletos...
Perdidos, dentro dos guetos,
No cimento e no carvão.

Mas há outros retalhos tantos
Nesse mundo de meu Deus!

Urge juntar as pessoas
Que vagam nas noites longas
Jogam-se aos mares violentos
Pra vida recomeçar.
Lançar um olhar pra infância,
Acolher nossas crianças,
Novo sol, novo luar.

Mas há outros retalhos tantos
Nesse mundo de meu Deus!

O ser humano moderno,
Cativo da própria imagem,
É retalho permanente.
Encastelou-se consigo,
Retalhou seu coração.
É preciso que a esperança
Possa fazer-se canção.

Por quê?
Por que há tantos retalhos?
Tantos?
Nesse mundo de meu Deus?!

GUIOMAR TERRA BATÚ DOS SANTOS
Poema publicado no Livro “Afluências”, produzido no 16º ACAMPAMENTO DA POESIA de Entre-Ijuís – 2017- cujo tema era “retalhos”.

 


 

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