07/06/2018 às 10:00
SONETO DE FIDELIDADE

Vinícius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Marcus Vinícius da Cruz de Mello de Moraes (1913-1980) foi poeta, dramaturgo, escritor, compositor e diplomata. Casou-se nove vezes e teve cinco filhos. Em sua vasta produção poética, enfocou temas sociais, o amor e a figura feminina.
Soneto de Fidelidade é uma composição lírica que apresenta-se em perfeita estrutura clássica: catorze versos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos – um soneto, apesar de lançado na segunda fase do Modernismo.
É um poema muito popular entre os apaixonados, não sendo demais sua perfeita compreensão pela passagem do Dia dos Namorados. Trata-se de uma promessa de fidelidade ao amor, ao qual promete lealdade, sinceridade, paixão, desvelo. Promete estar sempre atento ao amor, cuidadoso com o amor e, mesmo que possa encontrar outro sentimento, cuidará para que o próprio pensamento não deixe nunca de se encantar com o amor ora em êxtase.
O Eu lírico mostra um grande amor ao amor, não a uma pessoa. Quer vivê-lo em cada e em todo instante, “Em cada vão momento”. Quer fazê-lo sempre presente, a ele espalhar seu canto, sua alegria ou seu pranto, conforme seu desejo, seu querer.
Tem consciência, no entanto, que nesta vida nada é para sempre, nem a própria vida. A morte chega um dia, isso angustia o ser humano. Todo ser que ama também não terá eternamente o amor, pois ele acaba, e com os amantes fica “a solidão fim de quem ama”. O que importa é que se possa cantar o amor vivido, conservado, cuidado, sentido com intenso fascínio. O amor que se sabe, será findo um dia, “posto que é chama” e as chamas aquecem, incendeiam, devoram e, por fim, sucumbem. Mas não é isso que importa, não é o tempo que a chama dura, mas a intensidade de seu calor, sua incandescência, com o arrebatamento e domínio que o amor exerce sobre os apaixonados, “que seja infinito enquanto dure”.
Quando findo o amor, só resta aceitar que a chama se extinguiu. Há quem não aceite o fim do amor, querem a posse e preferem matar o ente detentor de seu amor, a viver sem ele. Quem sabe tivessem todos o entendimento da transitoriedade do amor e a aceitação da sua finitude, poderíamos diminuir a violência e o crime passional.
Mas, tristezas à parte. Parabéns a todos os namorados e que seu amor seja infinito e duradouro!

 

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