14/06/2018 às 09:32
DEFUMANDO AUSÊNCIAS

Telmo de Lima Freitas

Busquei o teu riso claro,
Chamei por teu nome
Mil vezes em vão,
E muitos invernos,
Ao pé do borralho,
Defumei ausências,
No fogo de chão.

Gritei pela madrugada,
Lá fora nem rasto
De alguém pra escutar.
Um dia uma estrela
Correu à janela,
Me dando notícias
Que ias chegar.

Passei vassoura
Na sala do rancho,
Enxaguei a cuia
Para te esperar,
E quando vieste
Pra baixo do poncho
Mil sonhos antigos
Comecei cantar.

E desde esta feita,
Não me reconheço,
Nem sei se mereço
Amar e sorrir.
Minhas pilchas de gala
São os teus carinhos,
Que abrem caminhos
Pra eu prosseguir.


Telmo de Lima Freitas nasceu em São Borja, em 1933. Trabalhou em lavouras de arroz, foi peão de estância, enfermeiro e agente da Polícia Federal. Em 1979, com a música Esquilador, venceu a Califórnia da Canção.
Suas composições trazem a marca do campo na simplicidade de sua linguagem, na autenticidade com que aborda os temas e na sinceridade com que desnuda a alma e dá corpo ao verso.
Em Defumando Ausências, música muito popular entre os admiradores do gênero, temos um poema narrativo e confessional onde o Eu lírico, que se depreende masculino, inserido num universo de simplicidade está à espera da mulher amada que lhe traga alegria “Busquei o teu riso claro”.
Uma espera que é longa, paciente, terna e nostálgica “em muitos invernos, ao pé do borralho, defumei ausências”. A espera é um misto de paixão velada e prazer de esperar “defumeiausências”. Defumar ausência, curtir, amadurecer, valorizar a ausência e, assim, qualificá-la, dar-lhe intensidade, tornar mais doída a solidão enquanto constrói sonhos. Dessa ausência surge o grito silencioso solitário “lá fora ninguém pra escutar”.
Tanta espera... Tanta ausência defumada... A clarividência na estrela que cruza a janela “medando notícias que ias chegar”. É preparar a chegada: limpeza no rancho, mate novo, novo matear. E ao recebê-la ”pra baixo do poncho” dá lhe no calor e proteção do poncho o próprio coração. Abre-se a possibilidade para que as mil vezes chamadas em vão sejam compensadas pela possibilidade de mil sonhos antigos poder cantar e prosseguir na vida, agora enfeitado, adornado, vestido com pilchas de gala – os carinhos da amada.
Composições vinculadas ao universo campesino, não marcadas pelo machismo, a estupidez, a brutalidade no trato com as mulheres nos dão esperança de melhores dias para nossas filhas e netas, novos conceitos, nova cultura. Que venham muitas canções com este enfoque e muitos ponchos esperando as mulheres, nuncacomo gaiolas, mas como corações que amam, respeitam e abrigam.
Parabéns ao autor pela postura respeitosa com as mulheres!

Guiomar Terra Batú dos Santos.
 

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