22/06/2018 às 14:14
EU E MINHA FIVELA

 Ernani Nascimento

 

Hoje te encontrei,

minha fivela prateada,

relíquia do meu passado.

Trazes meu nome gravado

Entre o ouro e o rubi.

E que por arte de uma

“trompeta”

foste parar numa gaveta

mas eu nunca te esqueci.

 

Mas ela parece

que assim me reponde:

“A mim não adianta

pedires desculpas,

pois não tenho culpas,

se meu dono envelheceu.

 

“Eu continuo a mesma,

só um pouco enzinabrada.

Mas bastará uma areada

para  que ressurja

o mesmo esplendor

de quando uma china atrevida

se esfregava em tua barriga,

num blá-blá-blá...

pedindo amor”.

- É verdade, minha fivela!

Quanta tuana

te desafivelou com carinho

para depois te jogar ao chão.

Perdido naquele amor pagão

teu dono de ti esquecia.

Somente no outro dia,

depois do festival,

é que ele te procurava.

E tu ali estavas,

silenciosa e serviçal.

Tu, de fato, não envelheceste.

Quanto a mim,

o tempo não deu tréguas,

viajei léguas e léguas.

Envelheci... eu sei.

Mas tu no tempo paraste.

Por isso – ninguém perdeu,

ninguém ganhou,

porque eu,

nos filhos e netos me renovei.

Mas vamos fazer um acordo.

Ficará bem pra nós dois –

Logo um neto se tornará homem.

Ele levará também o meu nome,

Então para ele eu te farei presente.

E tu, na cintura dele,

voltarás a brilhar novamente!

 

É uma honra ser amiga deste poeta bossoroquense - Ernani Nascimento, pessoa transparente, verdadeira, simples. Sua poesia, no entanto não é tão simples assim. Como O essencial é invisível aos olhos, precisamos lê-los com o coração.

No poema acima há um Eu lírico reminiscente em diálogo com sua fivela. A fivela é a  personificação, o simbolismo de sua juventude e do empoderamento de ambas. Guaiaca é símbolo de poder do gaúcho, dá-lhe segurança, prende a roupa, guarda o dinheiro, o cigarro, os documentos (identidade). Contudo, nada é sem uma fivela. E a fivela do poeta é, ainda, um adorno que guarda segredos, traz lembranças de conquistas amorosas.

Esta maravilhosa fivela é uma relíquia, como o próprio passado, representa uma história a ser preservada, uma cultura que passa de avô para neto.

Tudo isso muito bem dito com a sensibilidade e a fineza do Ernani Nascimento.

 

 

 

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