29/06/2018 às 17:00
Espera e esperança

 ESPERA E ESPERANÇA

Amanhece. Manto enrolado na cabeça, abro a janela. A covardia do sol permite o livre passeio

do minuano, da garoa gelada. Anteontem três graus centígrados, ontem 2 graus e hoje, apenas

um grau.

Nos olhares de mútua cumplicidade das pessoas, a silenciosa interrogação - que é isso? Onde

vai para esta invernia?

Ah... A reflexão que nunca me dá tréguas se instala em mim em irredutível provocação. Sei.

Foi-se o calor do verão. O vento varreu as vermelhas folhas do outono e as ilusões. O tempo de

espera quer substituir a esperança. Quem me dera não desmaiem minhas utopias como

desmaiam as plantas gemendo de frio.

As crianças passam para a escola em alarido costumeiro, boca fumegando, nariz vermelho

escorrendo, mãozinhas geladas. Mesmo assim bem melhor que aquelas lá longe, onde é verão,

mas estão separadas dos pais, confinadas em gaiolas.

Acendo o fogo na lareira. Mesmo assim, meu cachorro continua a tremer de frio; em pedido

de socorro, com força, consegue empurrar a poltrona onde me sento para escrever.

Compadeço-me e, imediatamente, construo uma roupa para ele. Visto o Maximiliano – Max

para os íntimos – que me olha agradecido.

Detenho-me a observar as chamas na lareira e lembro que nossos antepassados, os indígenas,

em volta às fogueiras, rodas de fogo, aqueciam-se e aqueciam as ideias, dialogavam, tomavam

decisões coletivamente, ensinavam ética, respeito à mãe natureza, preservação de sua cultura.

Hoje, em volta às labaredas da lareira é o lugar do silêncio. Movimentos raros nas bocas.

Quando uma pergunta surge, dificilmente uma resposta se ouve. O único movimento é das

mãos. É mais cômodo tornar os ausentes presentes e os presentes ausentes.

Lá fora, sei que as ovelhinhas, mesmo cobertas de lã, padecem. Os porquinhos se amontoam

para se aquecerem mutuamente. A gadaria abandona coxilhas e colinas para proteger-se nos

matos e baixadas. Os pintinhos se refugiam sob a galinha, mãe acolhedora.

As nuvens galopam e o céu vai se abrindo aos poucos. Vê-se a lua buscar a companhia das

estrelas, enquanto humanos dormem ao relento.

Abrem-se as cortinas do dia. Abro as cortinas da janela. A garoa cessa. A cerração baixa. O fio

de luz, à frente de minha casa, é um colar de contas de cristal. Nele, pombo e pomba pousam

seus pezinhos. Sacodem a plumagem e secam-se. O pombo, elegante, começa o cortejo à

pomba, fazendo-lhe carinhos com o bico. A pombinha faz-se de rogada. Depois de repetido

cortejo, o pombo salta sobre ela. É a vida que se reinicia em pura poesia.

Encorajo-me. Abro a porta e olho o jardim. Extasiada, vejo um cacho de resistentes rosas

rubras, pura púrpura, verdadeiro veludo, que não se aniquilaram sob as agruras do tempo e,

ali, enfrentam o frio para enfeitar a vida, pois depois da invernia, sempre virá a primavera e,

com ela, o cio da terra, para que tudo rebrote.

Eis que a espera será, então, substituída pela esperança, que sempre há de brotar no coração,

dourar os dias, diminuir as noites longas, chamar as cigarras e suas cantilenas.

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