12/07/2018 às 15:51
FESTA DE SÃO JOÃO

 “Ai bota aqui, ai bota ali o teu pezinho,

O teu pezinho bem juntinho com o meu,

E depois não vá dizer

Que você já me esqueceu”.

(Do Folclore)

A professora trabalhara durante dias. Ensaia daqui, ensaia dali. As danças têm de sair perfeitas. É uma noite que está sendo esperada por todos. Com as mães, ficaram as providências para as pipocas, os pinhões, os pés de moleque. Com os pais, o quentão e a fogueira. Com a professora e os alunos, as atividades artísticas. Estava tudo perfeito. O céu coberto de estrelas. Um luar de prata pura. E frio. Muito frio. Mas a fogueira dava conta de luz e calor suficiente em meio aos risos, gritos e assovios. A fogueira aquecia a todos. Aquecia corações duros e macios. Aquecia sorrisos e carrancas. Homens e mulheres, ricos e pobres, brancos e pretos. Aquecia o presente e o passado. O passado que nos volta sempre à memória em noites de Festas de São João.

As mães passaram a semana costurando trajes para as filhas e filhos. Agora, era chegada a hora das apresentações e tinham todos que brilhar, que a noite era um brilho só. As mães correm, correm de um lado a outro, ajudam a vestir as crianças, e prepará-las para as danças. Enfim, estão todos ali postos, prontos para as apresentações. De um lado da fogueira, os alunos, a professora, o gaiteiro. Do outro lado, o público para assistir ao espetáculo.

De repente, entra correndo a mãe de um menino bem pretinho, cujas calças curtas expunham as pernas finas e pretas a reluzir ao clarão da lua, à luz da fogueira. A mãe pega o filho pelo braço, retira-o correndo da fila, leva-o à secretaria da escola e passa-lhe talco nas pernas. Talco, muito talco, até branqueá-las. O menino volta correndo. O gaiteiro começa a tocar: “Ai bota aqui, ai bota ali o teu pezinho...” (onde terá o menino negro direito de botar o pezinho?) Dá o braço à colega para a dança e sorri. As pernas brancas, os dentes brancos. O coração negro... triste.

Terminadas as apresentações, as danças, a festa continua vibrante. A fogueira vai aos poucos se consumindo como todas as chamas, que chamas são assim mesmo, ou as alimentamos ou elas morrem. Começam as provocações: quem tira os pés descalços e caminha sobre as brasas? Quem? Quem tem coragem?

O moleque pretinho, com as pernas ainda brancas de talco, tira o calçado e passa caminhando por sobre as brasas, porque negro é assim - tem de ter muita coragem, não pode recuar frente às dificuldades e adversidades. Ou caminha fazendo sua trilha ou não caminha.

 

 

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