19/07/2018 às 10:37
GANA MISSIONEIRA

Cenair Maicá, Nilo Bairros de Brum, Valdomiro Maicá

 Esta gana missioneira que carrego inteira dentro do meu peito

Me faz caudatário de um rio que volta para o velho leito

E o mate que cevo pra sorver solito quando o sol se vai

É a seiva bugra da terra vermelha do Alto Uruguai.

 

Eu sou missioneiro, nasci para a liberdade

Mas aqui finquei meu rancho pra não morrer de saudade.

Sou herdeiro de Sepé retemperado na guerra

E se precisa eu tranco o pé pra defender minha terra.

 

Hay os que se perdem por perder raízes que não acham mais.

Hay os que se encontram por voltar às fontes de seus ancestrais.

E as encruzilhadas parecem caminhos a se afastar

Quando na verdade são pontos de encontro pra quem quer voltar.

 

Eu sou missioneiro, sei de bailes epotreadas

Também sei de mutirões no cabo liso da enxada.

Por saber tudo o que sei, me sinto bem à vontade

Sempre pronto a defender guerra, honra e liberdade.

 

Cenáir Maicá está entre os artistas mais estimados e admirados no nativismo gaúcho, com belíssimas interpretações, voz terna, canto aguerrido, cheio de essência e engajamento social. Nilo Bairros de Brum, grande poeta. Valdomiro Maicá, artista de renome no mundo nativista.

Gana Missioneira é o poema do orgulho do pertencimento, onde o Eu-poético afirma reiteradamente sua origem missioneira (1ª, 3ª e 4ª estrofe), justificado pela presença de elementos próprios dos missioneiros, tais como: o gosto pelo chimarrão, expresso em linguagem poética construtora de uma imagem romântica: “O mate que cevo pra sorver solito quando o sol se vai”; o ideal de liberdade, “Nasci para a liberdade”; o amor terrunho, “aqui finquei meu rancho pra não morrer de saudade”; o destemor, “se precisa eu finco o pé pra defender minha terra”; o orgulho de sua história, “sou herdeiro de Sepé”. Herdeiro de Sepé? Qual a herança recebida? A gana missioneira, o sangue de guerreiro dos antepassados, fortalecidos nas lutas.

Um missioneiro, conhecedor da vida, a anunciar e denunciar que há pessoas que se perdem por perder suas raízes, seus princípios. Há também os que se encontram consigo mesmos ao reencontrar sua essência, voltar a beber da fonte da verdade. Para tudo há encruzilhadas, questionamentos, tentações que dificultam escolhas de regresso às raízes.

Talvez estejamos precisando do ímpeto do espírito missioneiro de defesa do país. Talvez esta seja a encruzilhada dos dias modernos, a volta da guerra à falta de ética, a sustentação da luta-honra-liberdade, matando todas as sedes em todas as fontes, fazendo-nos caudatários no leito do rio da vida com respeito e dignidade.

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