16/08/2018 às 11:07
TIMBRE DE GALO

GUIOMAR TERRA BATÚ DOS SANTOS

 

 

Letra: Apparício Silva Rillo

Música: Pedro Marques Ortaça

 

Rio Grande, berro de touro,

Quatro patas de cavalo.

Quem não viveu este tempo,

Vive este tempo ao cantá-lo.

E eu canto porque me agrada

Neste meu timbre de galo.

 

É verdade que alguns dizem

Que os tempos hoje são outros,

Que o campo é quase a cidade,

E os chiripás estão rotos,

Que as esporas silenciaram

Na carne morta dos potros.

 

Cada um diz o que pensa,

Isso aprendi de infância,

Mas nunca esqueça o herege

Que as cidades de importância

Se ergueram nos alicerces

Dos fortins e da estâncias.

 

Não esqueça, de outra parte,

Para honrar a descendência

Que tudo aquilo que muda

Muda só nas aparências

E até no bronze das praças

Vive a raiz da querência.

...............................................

 

Eu nasci no tempo errado,

Ou andei muito depressa,

Dei ô de casa em tapera,

Fiquei devendo promessa,

Mas se eu pudesse eu voltava

Pra onde o Rio Grande começa.

Timbre de Galo, grande sucesso na voz de Pedro Ortaça, é quase um hino do RS. A letra é uma das tantas pérolas do grande poeta, folclorista e escritor Silva Rillo, são-borjense, autor de 23 livros de poesia, mais de 300 poemas musicados. São suas as conhecidas obras Rapa de Tacho I, II e III, fundador do grupo Os Angueras e idealizador do Festival da Barranca.

Pedro Ortaça, grande ícone do nativismo, nasceu no Pontão Santa Maria, em 1942. Em 1977, foi sua primeira gravação. Hoje, são 13 CDs e um DVD gravados. Centenas de shows no Brasil e em outros países. Entre vários títulos e premiações recebidas, merece destaque a distinção MESTRE DAS CULTURAS POPULARES, que lhe foi concedida pelo MIC, em 2008.

Na trajetória artística de Pedro Ortaça, é nítido o ideário de cantar o povo missioneiro, sua identidade, origem e memória, além de denunciar a realidade dos mais pobres, dos índios, dos negros, dos injustiçados, sempre no estilo missioneiro, na voz, o timbre dos galos, nas cordas do violão, os sinos das catedrais.

O poema em pauta, inicia-se pela caracterização do Rio Grande de outrora, a presença do gado e do cavalo, a economia pastoril. Tudo na visão imponente como “berro de touro”, e exuberante como o gaúcho em seu cavalo. Na sequência, o autor responde àqueles que criticam o canto nativo, olhando-o apenas pelo viés do saudosismo, “que os tempos hoje são outros”, mas que as cidades se ergueram nos fortins e nas estâncias. As praças são marcadas pelo bronze das placas, dos bustos, das estátuas dos antepassados, as raízes.

As mudanças não são tão profundas assim, são apenas nas aparências e algumas para pior. Há um estado de inconformismo do poeta: “eu nasci em tempo errado”, encontrei catedrais taperas (não pude pagar promessas), aldeias abandonadas. Se eu pudesse, eu voltava para o Rio Grande de outros tempos.

O galo e sua crista alta e vermelha, é chama vigilante. Se o galo não canta, o dia não vem, não vem a luz, o sol não nasce, a vida não brilha. Que tenhamos muitos cantos de Pedro Ortaça em seu timbre de galo, para chamar o sol, iluminar o dia, trazer esperança, acordar os que dormem, cantar hoje o ontem para construir o novo amanhã, colorindo esta pátria colorada herdada dos guaranis.

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