10/09/2018 às 09:56
CHIMARRÃO DA MADRUGADA

 

Autor: Aureliano de Figueiredo Pinto (1898-1959)

 

Não sei por que nesta noite

O sonho velho cebruno

Ergueu a clina e se foi!

E eu que arrelie ou me zangue. (...)

Então, da marquesa salto

E vou direto ao galpão:

Bato tição com tição

E a lavareda clareia

Os caibros do galpão alto.

Já a cuia bem enxaguada,

Corto um cigarro daqueles

De reacender vinte vezes

Num trote de quatro léguas. (...)

E quando a chaleira chia,

Principio um chimarrão,

Mais verde e mais topetudo

Do que um mate de barão.

Um galo – o cochincho mestre!

O laço desenrodilha.

E fica só com a presilha

Do laço de um canto largo.

E os outrosgalos-piazitos

Vão atirando os lacitos.

E até um garnisécargoso

Vai reboleando orgulhoso

O soveuzinho feioso

Feito de couro com pelo.

Nem relincham os cavalos!

Com brilho de ponte-suelas,

Lá em riba estão as estrelas!

Cá em baixo os cantos dos galos.

A estrela d’alva trabalha

Na imensidão da hora morta:

Sobre a prata de um punhal

Que ainda há de sangrar o dia. (...)

O perro Baio-colera

Faz que cochila... E abre os olhos,

A espaços, regularmente.

E me fixa os olhos claros

Como um amigo dos raros,

Cuidando do amigo doente.

É um gosto olhar os brasidos

E o luxo das labaredas

Dançando rendas e sedas

Para a ilusão dos sentidos

E o chimarrão macanudo

Vai entrando pelo sangue!(...)

E as ventas se abrem gulosas

Por cheiro de madrugada.

- Potrilhos em disparada

Num Setembro de alvoroto.

Ah! Sangue velho... Descubro

Porque hoje estás de vigília:

- Dois séculos de Fronteiras,

De madrugadas campeiras,

De velhas guardas guerreiras

Bombeando pampa e coxilha!

Por isso é que hoje não dormes!

Ouviste a voz de ancestrais;

- “O chimarrão principia!

Alerta! O campo vigia!

Da meia-noite pro dia

Um taura não dorme mais...

 

O poeta e escritor Aureliano de Figueiredo Pinto, nasceu em Tupanciretã. Teve uma vida dedicada à medicina, atuando no município de Santiago.

Sua obra de caráter regionalista, retratava a estância onde sempre esteve sua alma. A estância era a natureza, o ser humano, os animais, a realidade social, a vida, enfim. Pode-se dizer que Aureliano é o pai do Nativismo gaúcho, com uma produção marcada pela sensibilidade, a autenticidade e a ética. Sobre seus escritos, dizia: “maus, mas meus”. Como diz Sérgio Metz, “Ele fez, há mais de cinquenta anos atrás e muito melhor, o que se tenta agora”.

Sobre o poema em pauta, basta sorver a essência em cada palavra mágica e viajar na imagem e no sentido, e transportarmo-nos a atualidade que nos faz perder o sono. Que seus versos nos levem a bater tição com tição e, no clarão das labaredas, dançando rendas e sedas, possamos ouvir a voz de ancestrais, reagir e refazer o país, proclamar as tantas e necessárias independências.

Estamos em plena noite. “Alerta! O campo vigia! Da meia-noite pro dia, um taura não dorme mais...”.

 

 

 

 

Comentários

Nenhum Comentário. Deixe o seu comentário!

Mais posts de Guiomar Terra dos Santos