21/09/2018 às 14:46
RÉSTIA DE VIDA

Guiomar Terra Batu dos Santos

 

Momentos há em que, sem querer, paramos pra pensar. Num momento assim, sem querer, parei pra pensar o mundo. Ao pensar num mundão de coisas desse mundão de Deus, até emudeci, um tanto incomodada por coisas tantas. O pensamento, brasa viva em pele macia, rude, branca, preta, pede poesia e música. Pra fugir da internet, vasculho CDs.

Num CD antigo, 19ª Coxilha Nativista de Cruz Alta, várias relíquias. Entre elas, RÉSTIA DE VIDA, uma letra de Carlos Omar Vilella Gomes, transformada em canção por Jari Terres, interpretada por Luiz Marenco. A RÉSTIA DE VIDA vem falar comigo, já na primeira estrofe do poema: “Talvez as palavras não bastem / E os olhos não vejam o que existe além / Quando os versos florescem discretos, / As paixões do poeta florescem também”.  Sim, muitas vezes, as palavras derramadas nos versos que florescem transcendem o real, em espécie de transe, e carregam-se de plurissignificação para revelar, aflorar, o que muitos olhos não enxergam, pois são paixões dos poetas que florescem também.

Mas como florescem os versos do poeta? “O que seria do poeta / Se não existisse a beleza de cada lugar? / Se a lua sumisse de noite / E o vento em açoite / Gemesse ao soprar?”. “Enquanto existir uma estrela / Algum rio que vagueia / Uma garça no céu”, o verso florescerá. Transponho-me do continente para meu quintal. Em meio às tantas festanças da Semana Farroupilha, com tanto canto e tanta dança, alguém sabe o que canta e o que dança? Chega-se a uma reflexão do que é tradicional, tradicionalismo, regionalismo, folclore, nativismo, cultura, alienação? Música gaúcha? Música de raiz? O que dizem as canções em que se embalam os gaúchos enquanto dançam?

E MAIS: O que dá sentido ao instrumental, se não a poesia ali musicada? É o verso do poeta que sustenta nossa complexidade cultural identitária, essa vivência dos gaúchos que o faz tão diferente. Inclusive nas canções folclóricas, os ritmos dos bailados só tem sentido porque alguém lhes deu vida em versos, alguém cantou “Ai bota aqui o teu pezinho”, “Queria ser balaio, balaio queria ser, pra andar dependurado na cintura de você”, “Caranguejo não é peixe, Caranguejo peixe é”.

O que mantém nossa identidade é, pois, essa mania que tem o gaúcho de poetizar e de cantar, cantar muito os versos dos poetas. Alguns que poetizam para trazer à baila realidades de outros tempos e lá, nas raízes, buscar novos tempos. Outros para registrar o saudosismo. No entanto, muito poucos dão aos poetas letristas o valor que lhes é devido. A própria mídia anuncia a música e o intérprete e, muito raramente, menciona o poeta autor da letra, confirmando o pouco valor que se dá ao poeta.

Será que alguém já se perguntou: “O que seria da vida, / Se um dia o poeta sem luz / resolvesse calar?”.

Que bom que encontrei em RÉSTIA DE VIDA, um facho de luz para acender ainda mais a brasa questionadora que me habita e justificar meu amor à poesia e à musicalidade, pois elas dão sentido à existência humana, nos diferencia de todas as espécies, justifica que se conte, se cante e se dance tanto nesse Rio Grande, pois “O verso é um pequeno resumo, / A essência, o sumo do que há de ser. / O poeta é quem busca estes rumos / Nesta parte do mundo em que insiste em viver”.

 

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