19/10/2018 às 16:13
NOS, OS EDUCADORES

 

“Quantos somos, não sei. Somos um, talvez dois, três ou quatro. Talvez a multiplicação de 5 em cinco mil. E cujos restos encheriam doze terras.” Vinícius de Moraes assim se refere aos poetas. Utilizo-me destes versos para referir-me aos educadores, pois não sei, realmente, quantos somos, o que sei e o que leva-me a escrever aos educadores é a passagem do dia do professor, em quinze de outubro, e as milhares de mensagens e homenagens que circularam.

Não me encorajo a parabenizar os colegas professores da minha rede. De fato – não me encorajo. Não me encorajo porque sei como se sentem os professores e sei o que mais anseiam. Os professores não querem parabéns, agradecimentos, homenagens.

Tudo isso é insatisfatório, pouco significante, pífio até, quando a realidade que enfrentam é de grande desrespeito, desvalorização, indiferença.

Os educadores já não suportam o descompasso entre o alto custo de vida e o salário recebido, levando-os ao desespero, por já não dispor de condições para uma vida digna. Falta roupa, falta sapato, falta comida, falta remédio. Quando falta o pão, falta o chão, falta o sonho, falta o céu.

Não bastasse o aviltamento, a realidade circundante é de matiz perverso. Parece que só a mitologia explica, parece que se abriu a Caixa de Pandora e que de dentro saltaram todas as maldades. A economia a chafurdar-se. Escassez de trabalho. Crise de valores, de humanização e de ética. Sobra de violência e individualismo.

Na escola, medo, negativismo, conformismo e apatia dos colegas. Pais que delegam aos professores a educação de seus filhos. E o que é pior, foi-se o tempo em que o professor tinha razão, hoje o aluno é que sempre tem razão na visão da maioria dos pais. O entendimento errôneo do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) possibilitou o excesso de tolerância e a indisciplina, ao contrário do que ensina Paulo Freire que “Ensinar exige liberdade e autoridade”.

Urge, no entanto, que sonhemos uma vida diferente para essa realidade insatisfatória, tendo presente que somente a educação pode tornar possível um outro mundo, humano, espiritualizado. Para tal, faz-se necessário aos educadores uma coragem infinita para não desistirmos de nossas lutas, do nosso aluno, da nossa escola. Afinal, precisamos buscar respostas ao que nos pergunta Renato Russo: “Até bem pouco tempo atrás podíamos mudar o mundo. Quem roubou nossa coragem?”.

A luta educacional é sempre uma construção entre cidadãos no presente com o olhar no futuro. Talvez o mundo sonhado não seja construído para nós, mas será para os que virão. O que não podemos é renunciar à utopia, deixar que o desencanto tome o lugar do sonho e da paixão. Assumir a luta, contudo, é um misto de guerra e amor. É comprometermo-nos, cada vez mais, com pedagogias, com ações, com metodologias que deem sentido aos nossos quefazeres. Recuperar nosso espaço, nosso valor.

Acolher as crianças e os jovens. Dialogar com um aluno que, embriagado pelo mundo virtual, afastou-se do mundo real. Como tornar-se interessante para esse aluno? Como tocá-lo, emocioná-lo? Construir conhecimento e leitura de mundo? Qual conhecimento? “Filosofia, Matemática e Português são conhecimentos muito importantes, mas são apenas ferramentas para a única coisa que de fato importa: darmos conta da vida e fazermos sentido nela.” – Dulce Critelli.

Apoiarmo-nos uns nos outros, perseverar quando a maioria desiste é condição para uma trajetória de vencedores. Não sei quantos somos, mas sei que somos muitos e sei que é com os professores que podemos construir um mundo mais humano. Sei que somos capazes de mexer na Caixa de Pandora, libertar a esperança que lá ficou presa e recolocar dentro dela toda a maldade que reina imperiosamente. Aí, encharcados de esperança, acreditemos como Fernando Pessoa que “Grande é a poesia, a bondade e as danças, mas o melhor do mundo são as crianças”.

Enfim, o respeito e a valorização profissional será resultado da perseverança de uma classe, do profissionalismo, do amor ao educando, ao mundo, as gentes. E aí sim, parabéns mil vezes! Como amo vocês! Como amo vocês!

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