25/10/2018 às 16:26
O GURI E O PASSARINHO

 

Um guri sentado no portal do rancho,

Dardejando os olhos pra o sem fim dos campos,

Viu um passarinho posar na porteira

E abrir o bico redobrando um canto.

 

Brotou entre os lábios do guri – solito

Um assovio plagiando o pássaro liberto,

Que lá da porteira pra o oitão do rancho

Bateu asas, talvez, pra ficar mais perto.

 

Mas do mesmo jeito que chegou cantando,

Alçou voo pra se perder do olhar

Do guri que então ficou olhando o céu

E uma lágrima não pode segurar.

 

Percebeu, enfim, que o cantar da ave

Era belo e terno porque traduzia

O viver liberto de quem faz seu rumo

E talvez, por isso, tenha poesia.

 

Conformou-se, assim, o guri

Que mesmo desejando asas pra voar atrás,

Compreendeu que aquele passarinho vive

Pra não ser cativo e pra cantar a paz.

 

Porque são as aves e seus belos cantos

Que nem as gaiolas conseguem calar

Um exemplo ao mundo que oferta amarras,

Mas nelas só fica quem quiser ficar.

 

A música O GURI E O PASSARINHO integra o CD da 18ª Gauderiada da Canção de Rosário do Sul (2000). Roberto Paines, poeta santiaguense, com sua costumeira escrita sensível, construiu com maestria esse poema letra a que poderíamos chamar poema da sensibilidade. Falar em Cesar Oliveira é falar em competência musical – é dele a música. O autor, ao captar um momento da realidade ou apreender fração de seu imaginário, faz com que nos enlevemos na sucessão de sugestivas imagens.

É a narrativa de um mágico encontro de um menino e um pássaro, na simplicidade de uma casa humilde do meio rural - um guri, um portal de rancho, uma porteira, o olhar no céu, o redobrar de um canto - tudo tão conciso e com tanto carinho retratado que torna-se possível ver a cena, ouvir o canto, acompanhar o assovio.

Inicia-se pelo encantamento do menino ao ver o passarinho sentar na porteira e entoar seu canto. O encantamento cresce, na segunda estrofe, ao se estabelecer uma relação homem-natureza, menino-pássaro, quando o assovio evocatório do menino chama o pássaro que, terno, fraterno, se aproxima, “da porteira pra o oitão do rancho”, num diálogo de espíritos libertos. Na terceira estrofe, a lágrima incontida pelo afastamento do pássaro.

Segue-se o momento da reflexão e conclusão de que a beleza do canto da ave consiste no gozo da liberdade, na alegria de quem pode construir seu rumo, seu caminho, seu voo, seu destino – isso é magia, é magnitude, é metamorfose da vida em poesia e de poesia em vida.

Ante a constatação da imutabilidade dos fatos, o menino conforma-se, mesmo contrariado. Ficou nele o desejo de ser como pássaro, de poder voar, de cantar a liberdade, de não sujeição a qualquer espécie de escravidão, de romper amarras, que “nelas só fica quem quiser ficar”.

Grandes são as diferenças entre os seres do universo, quer adultos, quer na tenra idade. Há os que desejam voar, têm sensibilidade para apreciar passarinhos, cantigas e cantilenas, chorar olhando o céu. Há os que desejam bodoques para interromper voos dos pássaros, cercear liberdades.

Em suma, caro poeta Roberto Paines, há muito que se cantar pela liberdade de tantos meninos e tantas meninas sentados em tantos portais de ranchos; há muito que se cantar por tantos meninos e tantas meninas presos em apartamentos que não veem céu, passarinhos e seus cantares. Quem sabe isso esteja faltando para que esse mundo possa fazer-se mais humano e que juntos seja possível lutar pela paz, viver pela paz, cantar a paz. Quem sabe... Quem sabe...

 

 

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