22/11/2018 às 16:27
LUAS E ISCAS

Letra: Armando Vasques

 

Velho Pedro, quase lenda, por entre luas e iscas,

Vai mais paciente que o rio, seguindo piavas ariscas.

 

No silêncio do pesqueiro, curtido de solidão,

É pedra, lá na barranca, quem faz do peixe seu pão.

 

Ao longe, o horizonte sangra num parto de sol

E o pescador só traz barro na fisga nua do anzol.

 

Jogando esperas, na espera, Pedro pede ao rio que o deixe

Trocar a fome dos piás pela agonia de um peixe.

Pela agonia de um peixe, trocar a fome dos piás.

 

                   Velho Pedro, quase lenda, já curvado qual anzol,

Pedro, pedra da barranca, velho Pedro chuva e sol.

 

Da flor azul de um remanso, pelos filhos de quem chora,

Agoniza pelos piás, uma piava cor de aurora.

Agoniza pelos piás, uma piava cor de aurora.

 

Luas e Iscas, magnífico poema do grande poeta Armando Vasques, integra o CD da 9ª Califórnia da Canção de Uruguaiana. Está entre as mais belas canções do nativismo gaúcho, tanto pela estética quanto pelo conteúdo, o significado.

 

Pode-se perceber no poema-letra, a riqueza das figuras de linguagem a nos conduzir a percepção imagética e a sonoridade.

 

Com extrema competência, o poeta leva-nos a visualizar o pescador – uma figura muito conhecida, popular, quase lenda, mais paciente que o rio; sempre só – “curtido de solidão”; tanto tempo parado no pesqueiro que confunde-se à pedra ali cravada– “é pedra lá na barranca”; a luta difícil entre as ilusões e as desilusões – “só traz barro na fisga nua do anzol”; os anos se indo –“já curvado qual anzol”; triste – “pelos filhos de quem chora”.

 

Constrói a imagem do espaço e tempo: a noite – “entre luas”; o rio paciente; o pesqueiro em silêncio; a noite que se vai e o novo dia a nascer –“ao longe o horizonte sangra num parto de sol”; os anzóis à espera – “jogando esperas na espera”; em dias de luar ou não, de chuva ou não –“por entre luas e iscas, chuva e sol”; um remanso – “na flor azul de um remanso”; a piava dourada – “uma piava cor de aurora”.

 

Toca-nos o ouvido a pronúncia, a sonoridade dos vocábulos, de forma que se pode afirmar ser um poema construído em cima da sonoridade, onde a Aliteração expressa pela incidência do fonema “P” – uma consoante oclusiva que se repete trinta vezes, leva-nos à percepção sonora de rigidez, seca, dura, enfatizando a dureza do ofício e da vida do pescador: “pesqueiro, Pedro, pescador, paciente, quase pedra, esperas à espera,peixe, piava, pão, pelos piás, parto de sol”

 

Tantos Pedros, tantos piás, paciência tanta, pra tão poucos peixes! É a síntese da vida de quem tem a pesca como único meio de subsistência. Vida que vai ficando cada vez mais difícil, quando o desrespeito pela natureza vai gradativamente despovoando os rios.

 

Nessa luta, vão-se as iscas, vão-se as luas, vão-se os dias, vai-se o tempo, vão se os sonhos e, só fica o futuro incerto dos piás. Ficam tantos Pedros jogando esperas na espera que o futuro – na flor azul de um remanso – meninos e meninas possam ter direito a uma piava dourada - uma nova aurora, uma nova realidade.

Parabéns ao autor pela maravilhosa contribuição à arte literária e ao nosso nativismo!

 

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