06/12/2018 às 09:41
VIDRO DOS OLHOS

 

LETRA: Aparício Silva Rillo

MÚSICA: Luiz Carlos Borges

 

Me quebrou o vidro dos olhos

Me fez chorar, me fez chorar

Quem o vidro dos meus olhos

Vai agora remendar?

 

Meu pranto ao sol veraneiro

Se fez chuva e retornou

Para molhar-te o cabelo

Cabresto que me domou.

 

Bem querido, bem perdido

No meu destino de macho.

Campeio o bem que me veio

E já nem o rastro lhe acho.

 

Quem disse que homem não chora

A si próprio não entende

Quem teve os olhos quebrados

Não acha quem os remende.

 

Tive tudo e tenho nada

Do teu amor que perdi

Quem quebra o vidro dos olhos

Abre cacimbas em si.

 

Sobre os autores da letra e da música já teci alguns comentários em colunas anteriores. Vidro dos Olhos, tanto na interpretação de Luiz Carlos Borges como de José Claudio Machado, constitui-se verdadeira relíquia do nativismo gaúcho. Relíquia mesmo, joia rara, dessas que nos estilhaça o coração, de quebrar o vidro dos olhos.

 

O poema nasce de um eu lírico masculino e a inserção no nativismo se dá pela linguagem e o ritmo com que foi musicado.

 

A linguagem, no entanto, é profundamente lírica, apesar do uso de vocábulos próprios de nosso regionalismo, onde é comum termos um tanto rudes como: “cabresto”, “destino de macho”, “campeio o bem”, “homem não chora”.

 

A delicadeza dos versos revela o lado romântico do gaúcho, que perdido de amores, chora a perda da amada, no último grau do desespero. Desespero presente em todas as estrofes: “me quebrou o vidro dos olhos”, “me fez chorar, me fez chorar”. O pranto é tanto que se fez “chuva em sol veraneiro e retornou”. Chuva tanta que lhe molhou o cabelo. “Meu bem querido” transformou-se em “bem perdido”, por mais que eu campeie, “nem o rastro lhe acho”. O poeta teve tudo: o amor; agora “tenho nada”.

 

A construção da imagem visual, muito forte e muito lírica, nos leva ao belo e ao medonho. O belo – a imagem do olho se desfazendo em pedacinhos de cristal. O belo é tão belo que suplanta o medonho – íris, cristalino, retina, tudo despedaçado, esmagado, moído. Sabemos, no entanto, que olho não se quebra e o que dói não é o olho, é a alma representada pelo coração que sangra pela lágrima.

 

Será que este coração tem remendo? Tem conserto? “Quem o vidro dos meus olhos vai agora remendar?”. Podemos perceber que mesmo dilacerado pela dor do amor perdido, os caminhos para o novo amor já estão abertos: “Quem?”. Sim, o novo amor já está a caminho, um novo amor cura sempre a ferida deixada pelo antigo amor, faz desaparecer as cicatrizes mais profundas.

 

Os olhos, os olhos se quebram e muito nesse mundão de meu Deus. Os olhos dos humanos, quanto mais humanos forem, mais vezes e mais profundamente quebram-se ao longo da vida, pelos mais diversos motivos e mais variadas circunstâncias. Olhos quebrados não são mais que corações magoados. Tantas mágoas e tantas decepções vive o ser humano, que os o brilho do olhar vai se perdendo, basta que se compare o olhar da criança e do velho.

 

Contudo, é preciso acreditar que o tempo, senhor dos destinos, sempre pode trazer superação das dores. O tempo amigo consegue transformar todos os caquinhos dos vidros dos olhos quebrados, em brilhos de estrelas a cintilar, para que outros olhos, ao vê-los, se iluminem, remendem-se as almas e os olhos, reacenda-se a luz da esperança, e o novo faça-se presente a cada dia, a cada noite, por tempos e tempos, sempre renovados.

 

Que a beleza da poesia e da música sempre consiga quebrar o vidro dos nossos olhos e o gelo dos corações!

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