27/12/2018 às 16:50
DESVIANDO

 

 

Pela manhã, a chuva pesada. Na tarde, o sol escaldante. No céu, nenhuma nuvem. Na terra, nenhuma brisa. O final do ano aproxima-se. Nas ruas, um formigueiro de gente. Lojas cheias de gente. Praças cheias de gente.

 
Cidade cheia. As pessoas caminham abanando-se, secando o suor. As mulheres prendem os cabelos, afastando o calor. Nos bares, pessoas vindas do interior deliciam-se, com lanches, tomando sorvetes, sorvendo a felicidade do momento incomum.
 
Ela caminha entre os transeuntes na rua congestionada. De repente, aquela respiração ofegante para junto dela. Assusta-se, fica pasma, perplexa, louca de medo. Ele fixa nela os olhos tristes e logo segue seu percurso, rápido, quase correndo. Ela acompanha-o com o olhar, até que o perde de vista, impressionada. Em seguida esquece o episódio, entra numa loja, olha os vestidos, separa um para buscar no dia seguinte.
 
Dezessete horas. Caminha para casa, quando, de repente, como que saído do nada, ele aparece outra vez, rápido, quase correndo, como que sem rumo. Ela esmorece. Fica ali, paralisada. Ele olha para ela muito ofegante, a saliva escorrendo por entre os dentes alvos, na boca rosada. E, assim como parou, segue novamente, sempre rápido, quase correndo.
 
Ela segue seu percurso, passo calmo, cabeça cheia de porquês. Devagarinho, a noite vem, com seu manto, encher de breu o espaço, para que cintilem as estrelas, e a lua mostre suas mil faces transfiguradas à luz de mil olhos, sublimando o momento único.
 
O dia amanhece. Ela sai de casa feliz para buscar o vestido branco para a noite do Ano-Novo. Caminha algumas quadras e, perplexa, para, indignada. Estava ali, no asfalto, a cabeleira negra e pele e sangue. Vem-lhe a imagem de tudo. O tinido dos pneus, o grito, as pessoas voltando-se para olhar.
 
Os carros passam desviando. As pessoas passam desviando. Os olhos seguem atentos às vitrines. Ela segue para comprar seu vestido branco para a noite do Ano-Novo. Era um cão. Um cão abandonado. Apenas um cão abandonado. Poderia ser um homem abandonado. Passaríamos desviando. Seguiríamos desviando. Seria apenas um homem abandonado. Alguém, talvez até dissesse: “Um a menos a incomodar a sociedade”. É desagradável, melhor desviar. Ora, um cão ou um homem abandonado, não é problema de ninguém.
 
 
 

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