04/01/2019 às 15:56
BEM NA PORTEIRA

 

Letra: Gujo Teixeira
Música: Sabani Felipe de Souza
 
 
Circunstanciais, os limites pra quem vive no moerão,
Num rancho de terra bruta a um metro e tanto do chão.
Um casal de João-de-Barro com paciência, bico e asa
Escolheu bem na porteira pra erguer o sonho da casa.
 
O macho levava cantos pro timbre dos alambrados
Na partitura da cerca, anunciava os bem chegados.
Toda manhã de setembro, um canto novo acordava
Quando a fêmea emplumada, por sobre o rancho cantava.
 
Porta pro lado do sol, meter a cara em porfia
E um canto de passarinho chamando as barras do dia
Porque a vida tem sentido, onde a razão não se cansa
De renascer todo dia, aonde exista a esperança...
 
Mas foi bem junto da chuva que uma tropa de cruzada
Se apertou bem na porteira querendo pegar a estrada
E o moerão num trompaço perdeu o entono e a razão
E derrubou o ranchinho de terra e o ninho pro chão.
 
E a tropa cruzou por diante sem reparar no que fez
Casco e pisada quedaram dois sonhos de uma só vez.
E o barreiro repousado no outro moerão da porteira
Parecia que buscava ao longe sua companheira.
 
Custou, mas cantou de novo, de asa e de bico aberto,
Quando o casal se encontrou num cinamomo ali perto
Pra erguer um novo rancho no mesmo ciclo de espera
Longe do cruzo das tropas, na próxima primavera.
 
Gujo Teixeira é o nome artístico de Paulo Henrique Teixeira de Souza, de Lavras do Sul; veterinário, pecuarista e poeta; poeta por excelência, o que é reconhecido pelas dezenas de premiações recebidas. A composição de Gujo é pura espontaneidade. Nele, o verso jorra cristalino, natural como água da fonte. A fonte é o campo - paisagem, o mundo rural, o homem e seu sentimento do mundo.
Sabani Felipe é grande musicista, com carreira brilhante justificada pela talentosa forma de sentir o verso e extrair sintonia perfeita entre letra e música.
 
O poema em voga retrata a luta do casal de joão-de-barro que, num misto de artesãos, arquitetos e engenheiros, com paciência, bico e asa, constrói com perfeição seu lar, seu ninho, sua casa.
 
Já de início, o poeta afirma que “para quem vive num rancho de barro, construído em cima do moerão mais alto, os limites são circunstanciais”, pois, se não há limites para os olhos que desfrutam da mais bela paisagem, outros limites – perigos estão a rondar.
 
Um amor para querer, um lar para viver – felicidade completa: “o macho levava cantos pro timbre do alambrado, na partitura da cerca” – imagem sinestésica visual perfeita, envolvente, magia do paraíso.
 
Como paraíso não existe nem para os homens e nem para os animais, “uma tropa de cruzada se apertou bem na porteira, e o moirão num trompaço, perdeu o entono e a razão, e derrubou o ranchinho de terra e ninho pro chão”. Quedou-se o moirão, quedou-se o lar, os sonhos do casal quedaram-se. Contudo, o casal não capitulou. Custou. Custou dor. Custou tempo: “Custou, mas cantou de novo, de asa e de bico aberto, quando o casal se encontrou num cinamomo ali perto”. Que fazer após a derrota, após a ruina? “Erguer um novo rancho, num mesmo ciclo de espera, longe do cruzo das tropas, na próxima primavera”.
 
Isso é maravilhoso. Cair é da vida, mas a luta também é. Cabe, em tudo, a reconstrução. Refletir minuciosamente o porquê das derrotas e reconstruir nossos sonhos em tempos, lugares e companhias pouco circunstanciais. E aí, aí amigos, cantemos de novo, de asa e de bico aberto. Aí, “Porta pro lado sol, meter a cara em porfia, porque a vida não se cansa de renascer todo dia, onde exista esperança”. Obrigada ao casal de joão-de-barro! Obrigada, Gujo!
 
 
GUIOMAR TERRA BATU DOS SANTOS

 

 

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