17/01/2019 às 09:27
A RIQUEZA DA SOLIDÃO

 

No ritmo incessante e impiedoso da cotidianidade, há raros momentos em que nos podemos dar ao luxo de desfrutar da solidão, para a preciosidade de podermos falar um pouquinho conosco mesmos. São esses raros momentos que possibilitam que nos tornemos pessoas habitadas, reflexivas, capazes de olhar o mundo com os óculos da compreensão, indo além do senso comum, sair do lógico, do palpável, fazer outras leituras, revestir de sentido fatos e atos.

A praia estava quase vazia nesta manhã de quase sol, de quase chuva, de quase solidão. Sentada, à beira do mar, num desses poucos dias de férias que consegui dar-me o direito, começo a observar a cena pitoresca, protagonizada por aqueles animais e que me fazem lembrar tantos humanos. É um espetáculo indescritível observar a onda que vem com força bravia no alto mar e chega mansamente para beijar a areia da praia ou passar por ela em breve carícia. Nesse beijo, nessa carícia, carrega consigo os resíduos recolhidos no caminho.

Nesse dia, a onda traz consigo, entre objetos, um peixe de bom tamanho, belo peixe, frio, morto, e o deposita na areia fria, morta, para alimentar viventes frios, famintos, sempre prontos a alimentarem-se do infortúnio de outros seres: aves de rapina.

Pois o urubu se aproxima voraz do corpo inerte, pesado, e inicia a luta árdua, puxando-o, na tentativa de afastá-lo do mar: arrasta-o dois ou três metros, quando uma nova onda vem e puxa de volta o peixe, para, brevemente, devolvê-lo, outra vez, à praia. O urubu, radiante, voa para junto do peixe e retoma as atividades, arrastando-o alguns metros, quando outra ave de rapina chega e começa a disputar a presa. Absortos, um tentando vencer o outro, em luta corporal, não veem a onda que chega agora com mais força, recolhe o peixe morto e não mais o devolve ao local. Quando percebem isso, é tarde demais.  Tivessem somado forças, teriam saboreado juntos a caça. Foram vencidos pela disputa e nela fragilizaram-se. Sucumbiram ao individualismo. Levantam voo. Partem para novas buscas, novos erros ou talvez acertos, persistindo neles ou com eles aprendendo.

Assim somos nós, os humanos, em nossa individualidade. Passamos a maior parte da vida lutando uns contra os outros e muito pouco uns com os outros. Não crescemos o suficiente para entendermos que maiores que miseráveis conquistas individuais são as conquistas construídas no coletivo e para o coletivo. Isso exige, no entanto, ampliar visões, superar diferenças, respeitar, ser solidário e responsável. Só a luta coletiva pode atenuar a tragédia por que passam as gentes.

Este ser que é grande no coletivo porque é grande na individualidade só se constrói nos ricos momentos de solidão, quando conversamos muito profundamente conosco mesmos, refinamos nosso pensamento, lapidamos o grande diamante que é o nosso eu. A solidão nos ensina a ver além do nosso umbigo, a olhar o horizonte e não o dedo que o indica. A solidão nos ensina a abrirmo-nos ao todo, ao global, a deixarmos de lado o “euzinho” tão pequenino e partirmos para o nós, salvando ainda o planeta em sua dor e gemido.

A solidão nos faz melhores porque nos ensina a achar falta do outro e com outros caminhar outros caminhos. Sem a reflexão que a solidão proporciona, corremos o risco de sermos seres vazios, pouco habitados; urubus ávidos, eternamente famintos de muitas fomes. Eternamente urubus.

 

GUIOMAR TERRA BATÚ DOS SANTOS

 

 

 

 

Comentários

Nenhum Comentário. Deixe o seu comentário!

Mais posts de Guiomar Terra dos Santos