13/02/2019 às 10:30
INSTANTE CINGIDO

 

Cingir... Cingir o belo para eternizá-lo, torná-lo lembrança perene para revivê-lo, nutrir a alma, os sonhos, sorrir felicidade, chorar saudades boas, gostosas, deleites.

Cingir... Cingir, sem querer, nossa dor ao vê-la tão ínfima ante a dor alheia.
Cingir... Cingir nossa desatenção... Bater com força no próprio rosto para despertar, romper viseiras, abrir os olhos, ver que em outros olhos a lágrima é sangue da alma a escorrer quando o abismo se instala sem volta.
Cingir... Cingir a aurora, o cantar dos galos, a estrela d’Alva, para que acordemos, não capitulemos à normalização, à naturalização e a tudo nos acostumemos, conformemos consciências, enquanto sucumbimos imersos, submersos, sozinhos em tempos sombrios.
Cingir... Cingir a realidade dura, impura, madura, podre,traduzida:
 - em desrespeito quotidiano às crianças, aos jovens, aos adultos, aos velhos e tão densamente às mulheres;
 - na opressão dissimulada, velada, que semeia medo, sepulta direitos, liberdades, democracia, felicidade. E tudo tão certo, tão correto, tão normal, com amparos jurídicos a nos deixar perplexos, pasmos, paralisados;
Cingir... Cingir para anular o poder do lucro a resfriar o coração, a derramar a dor da destruição, a afogar de lama vermelha o que foi vermelho de paixão, de sonhos, de esperanças, de gentes, de pássaros, de cães, de gatos, de rios. Pobres rios cujas águas cintilavam estrelas, banhavam a lua, matavam a sede, refrescavam a tez o trabalhador.
Onde? Que momento, que lugar, que absurdo é este cingido? Brumadinho? Mariana? Tanto faz. Pode ser Brumadinho, ou Mariana ou qualquer um dos tantos lugares em que a tragédia voltará a acontecer, enquanto não cingirmos a vida como bem maior e mais precioso, enquanto a cegueira dos olhos cingidos nos impedirem de ver a delinquência do poder econômico a ameaçar a completa destruição do planeta.
Quando os fatos acontecem, emergem as lamentações. Mas, como ensina Ferreira Gullar, “somos feitos de carne e memória, de osso e esquecimento”. Logo esqueceremos tudo. Só sei que, nesse instante, no instante cingido, tenho vergonha até de sorrir, envergonha-me imensamente o instante cingido. Por isso, como Mário Quintana:”Não tenho vergonha de dizer que estou triste” e chego a me perguntar sobre o sentido da vida e o sentido da própria poesia.
Aí, vem o Juremir Machado e coloca mais um alfinete: “Onde foi que tudo se perdeu e nos convertemos em meros consumidores de objetos e de dejetos da civilização material? Quando foi que passamos a ter vergonha da poesia e a rir dos poetas?”. 
É o momento de Walace Stevens me convencer que a fé é a própria poesia: “Ao abandonarmos a fé, a poesia é aquela essência que toma o seu lugar como redenção da vida”.
E o sábio Edgar Morin peremptoriamente:”Nada tão passional como um romance: Nada tão maravilhoso como a poesia”.
Que poesia? Qual poesia? Fiquemos na melhor definição de Mário Quintana, ele, sempre ele: “Sábias agudezas... refinamentos...- não! Um poema não é para te distraíres. Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras”.
Deus meu! Amados poetas meus! Para que tem servido os poemas teus e os poemas meus?
 
 
GUIOMAR TERRA BATÚ DOS SANTOS

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