22/03/2019 às 15:57
CAMINHEIROS

 

Outono. Dia Cinzento. Fim de tarde. Ocaso. Devagarinho, o sol vai despedindo-se dos viventes. Ficamos, naturalmente, tristes, que o ocaso faz-nos naturalmente tristes, quer vejamos os raios rubros no horizonte, quer não os vejamos. O minuano sopra gelado e os sinos da igreja badalam a marcar o tempo para o início da missa diária.

 
Ah, como dói a ausência dos entes queridos num fim de tarde de outono! No fim de mais um dia de ausência, de saudade, de luta só. Para junto à janela. O suspiro é profundo, que o momento é profundo, que a espera é profunda e a luta, muitas vezes, parece vã.
 
O olhar se perde longe no breu da noite que começa a cair. Aparecem as primeiras estrelas e a lua cheia, indiferente e formosa, não tarda. De repente, de repente: O que é isso?! Duas estrelas caminheiras teriam vindo brilhar na terra? A respiração para. O que era apenas uma silhueta vai tomando contornos, vai tomando forma, até não deixar dúvidas. Sim, são os olhos do boi a brilhar como estrelas. É a imagem do boi Brioso que vem tocado por diante, para o matadouro. É o boi Brioso que, elegante, imponente, vem caminhando sem saber para onde, sem saber por quê. Assim como os humanos, como nós, os humanos, que, muitas vezes, não sabemos se caminhamos para avida ou para a morte. Qual o sentido da caminhada?
 
O boi Brioso caminha para a morte e para a vida. Amanhã será alimento para tantos. Será vida para tantos que caminham pela vida. Uns tantos que caminham para a vida e outros tantos que caminham para a morte.
 
O boi Brioso sempre caminhou para a vida. Boi de canga, sempre caminhou pela vida, solidário, unindo forças a outro boi, arando terra pra semear a vida, pra semear o grão, que grão é sempre vida. Quem dera ser como ele, caminhar sempre para a vida, esquecer a insignificância da morte, quando se tem uma vida toda de lutas.
 
De que vale uma vida inteira caminhada para a morte? De que vale uma vida inteira caminhada sem saber por que, sem saber para quê? De que vale uma vida inteira se não for para arar a terra, semear o grão, alimentar, frutificar? De que vale uma vida inteira caminhando só, caminhando ao caos, ao fim, apenas ao fim?
 
Mais triste que a trajetória do boi de canga é a trajetória de seu dono, pobre colono. A ele cabe ensinar seu boi, amar seu boi, explorar seu boi, matar seu boi e comer-lhe a carne, num fim de tarde triste, de outono triste e gelado.
 
 
 

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