04/04/2019 às 16:18
AMARGA TRAVESSIA

 

 

Mário Simon

 
Pêndulo insaciável é o tempo,
Devorando os futuros que não se criam
E os passados que nunca foram.
 
Pêndulo insaciável é o tempo,
Esse monstro que não existe
Mas habita nos seres e nos séculos.
 
Pêndulo insaciável é o tempo,
Rio sem água, luz sem brilho,
Avaro do perdão, surdo insensível.  
 
Pêndulo insaciável é o tempo,
Tormento de ilusórios vaticínios,
Onde se queimam as esperas inúteis.
 
Tempo que não permite ao homem
Que ande por si só em seu destino,
E o flagela desde o primeiro vagido.
 
E segue o homem, incônscio e triste,
Sugado nos remoinhos dos existires,
Tufões de seres e de estares.
 
E vai, pelas águas que não existem,
Como um pássaro que passa morto,
E que nunca pode alçar voo.
 
Existir é a condenação do ser.
 
E por essa razão implacável,
Obriga-se o homem a travessia
Do tempo que lhe é imposto.
 
Amargo, assim, é esse caminho.
Sem opção quando está partindo.
Sem escolha quando está chegando.
 
Ao homem é negado alfa e ômega.
 
E nesse tempo-travessia tributado,
Descobre,o homem, tardiamente,
Que a chegada é que é a partida.
 
O autor, Mário Simon, é professor universitário e historiador. Criador do Acampamento da Poesia de Entre-Ijuís. Livros publicados: O punhal de Deus, O caminho da pedra, Os Sete Povos das Missões, Breve notícia dos Sete Povos, Contos Missioneiros, Lendas Missioneiras, A Cruz Missioneira de São Miguel, Prêmio Revelação Literária do RS (1980), Destaque Cultural do Estado (2004).
O poema em pauta, já no título, “amarga travessia” mostra o tempo, o percurso da vida concebido com um percurso muito amargo, ao anteceder o substantivo travessia com o adjetivo amargo, dando intensidade à sinestesia.
Composto de dez tercetos e dois monósticos, os quatro tercetos iniciais são introduzidos pelo antecanto: “Pêndulo insaciável é o tempo”, de forma a impregnar no leitor a imagem do pêndulo, seu movimento e sua simbologia: oscila, move-se sem parar, mas não sai do lugar - é o simbólico que domina o texto do início ao fim.
 
Nos quatro primeiros tercetos, o poeta define o tempo. O tempo que tudo devora, consome, anula: “os futuros que não se criam e os passados que nunca foram”. Logo, não existe passado e futuro, o que existe é o hoje? Seguindo na definição, o tempo é mau, “um monstro” não visível, não palpável, mas que habita em nós, pois é nele que fazemos nossas construções que o próprio tempo há de devorar. Tempo que se anula e nos anula, em que tudo é nada: “rio sem água” não é rio, “luz sem brilho” não é luz; tempo algoz, avaro, nada perdoa, não permite vaticínios, previsões, nele queimam-se esperas, sonhos, expectativas.
A partir da quinta estrofe, passamos a acompanhar a ação do homem no tempo e deste sobre ele: não faz por si só o seu destino, no caminho vamos mudando o percurso mesmo sem perceber ou desejar: “O flagela desde o primeiro vagido”, suspiro, choro ao nascer, seguindo o percurso inconscientemente, sugado “nos remoinhos dos existires”, como um pássaro que nunca pode voar.
 
Nos dois dísticos resumem o tema: “Existir é a condenação do ser” – ninguém vem ao mundo por opção. “Ao homem é negado alfa e ômega” – não escolhe o início, nem o fim. A ideia conclusiva aparece com força na aliteração da estrofe final: descobre tardiamente nesse tempo-travessia tributado.
 
E apesar de toda nossa insignificância nessa travessia da vida, ostentamos uma importância que não temos, alimentamos ódios aos nossos iguais e amamos muito pouco, sem nos darmos conta da oscilação do pêndulo.
Parabéns, professor Mário Simon! Fui sua aluna e o serei enquanto o pêndulo oscilar.
 
 
 
GUIOMAR TERRA DOS SANTOS
 
 
 
 
 
 
 
 

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