26/04/2019 às 15:17
PALANQUE MESTRE
Letra: Rodrigo Bauer
Música: Miguel Marques
 
Ergo na espada os ideais guardados,
Sustento os ventos que o destino traz
E em cada estrada há de ficar timbrado
O rastro velho que o meu pingo faz.
 
Meu canto vaga, embora não se perca,
Lamento os tempos pela noite longa
E o vento arisco bordoneia as cercas
Para em seguida se fazer milonga.
 
Criado em campos, matos e campestres,
O olhar atende quando o gado berra.
Não vergo aos ventos, sou palanque-mestre,
Tenho raízes que ancorei na terra!
 
Que passe o tempo que me açoita tanto,
Dourando o trigo pra colher o pão,
Eu me sustento ressecando prantos
- mãos de tronqueira e alma de algodão...
 
A vida vai cada vez mais remota
A própria estrada, sem saber, nos trai
E o mesmo sonho, sem querer, desbota
Em cada lua que afinal se vai...
 
Porém, nem mesmo arrematado e gasto,
Entrego as armas e desisto, enfim!
Reúno as forças, finco o pé no pasto,
Ao cerne antigo da querência em mim.
 
Rodrigo Bauer está entre os maiores poetas do RS. Vencedor de inúmeros festivais nativistas de renome. O cunho regionalista de seus versos não impede o uso do vocabulário apurado em ricas construções imagéticas.
 
O poema letra “Palanque-mestre” foi transformado em canção pelo grande artista Miguel Marques, que dispensa apresentações. A partir do título, passamos a tecer a ideia que define o gaúcho sob a visão do eu-lírico imbricado no meio rural, já que palanque é usado para fazer cercas, sustentar alambrados. Contudo, necessário que ressaltemos, não tratar-se de um simples palanque – é um palanque-mestre, um moirão que, colocado em pontos onde há maior necessidade, dá sustentação aos fios do alambrado.
 
A firmeza de um moirão e, assim, do eu poético, é reafirmada na sequência de versos: “Sustento os ventos que o destino traz”, “Não vergo aos ventos”, “tenho raízes que ancorei na terra”, “há o cerne antigo da querência em mim”.
 
O tema central – luta, resistência, coragem, persistência – aflora densamente, no uso sequencial de substantivos impregnados da mesma significação deste tema central. Há uma “espada” representativa da luta pela preservação de “ideais” que precisam ser conservados, mantidos vivos. Para manter vivos os ideais, faz-se necessário força e coragem “sustento os ventos que o destino traz”. Muitos são os ventos que a vida nos apresenta, muitas são as dificuldades. No entanto, o caminhar é tão decidido, e tão firmes os passos que deixam marcas no andar.
 
Na segunda estrofe, o poeta vê a vida como uma longa noite, onde seu “canto”,
sua verdade, sua visão e pronúncia do mundo vagam, mas não se perdem, pois os contratempos “vento arisco”, tentam derrubar cercas, mas não passam de bordoneios em cercas que são como toques sonoros, dedilhados em pautas musicais cujo resultado são milongas tristes que embalam os sonhos, os ideais dos gaúchos, que persistem em seus embates.
 
O homem do campo, imperiosamente, é um conjunto de sabedoria e força: “o olhar atende quando o gado berra”, “não vergo aos ventos, sou palanque mestre, tenho raízes que ancorei na terra”.
 
A quarta estrofe é de tamanha beleza e plurissignificação que vale o poema todo. Ao mesmo tempo em que descreve a luta pela sobrevivência “dourando trigos pra colher o pão”, emerge a súplica de que passe logo este tempo de dificuldades “o tempo que me açoita tanto”, definindo seu perfil como de resistência “me sustento ressecando prantos”, encerrando com enlevo e ternura a essência do homem terrunho, um ser sem malícia, sem maldade: “mãos de tronqueira e alma de algodão”.
 
Na quinta e sexta estrofe fecha-se o poema-letra frente à constatação de que, ao longo da vida, a própria vida “estrada” nos trai, e que com o tempo “luas” os sonhos vão descolorindo. Contudo, não se pode desistir da luta, dos ideais “Há um cerne antigo da querência em mim”.
 
Enfim, é uma maravilhosa canção. Grata ao Rodrigo Bauer pela lição de coragem e esperança tão necessária nesses tempos em que as noites tomam os dias. Contudo vamos apoiando-nos também em Marin Luther King “Mesmo se eu soubesse que o mundo se partiria em pedaços, eu ainda plantaria a minha macieira”.
 
 
GUIOMAR TERRA BATU DOS SANTOS
 
 

                                             ‘ 

Comentários

Nenhum Comentário. Deixe o seu comentário!

Mais posts de Guiomar Terra dos Santos