03/05/2019 às 16:03
PAYADA A MARIO QUINTANA

Jayme Caetano Braun

 
Entre os bem-aventurados
Dos quais fala o evangelho,
Eu vejo, no mundo velho,
Os poetas predestinados,
Eles que foram tocados
Pela graça soberana,
Mas a verdade pampeana
Desta minha alma irrequieta,
É que poeta nasce poeta
E poeta é o MARIO QUINTANA!
 
Seria poeta na Lua,
Netuno, Saturno ou Marte,
Ele é poeta em qualquer parte,
No campo, cidade ou rua,
Mas a culpa não é sua,
Porém das musas diletas,
Que fazem reuniões secretas
No meio das noites calmas,
E gravam marcas nas almas
Daqueles que vão ser poetas.
 
Não existem dois Quintanas
No sistema planetário,
Existe somente um Mário
Nas geografias humanas,
E por entre as venezianas,
Entra o sol na sua janela
E sua alma é uma gamela,
Na soledade serena,
Que parece tão pequena,
Mas cabe o céu dentro dela.
 
O autorretrato que faço,
Guiado pelo instinto,
Quando de nuvens me pinto,
Passo a passo e traço a traço,
Não vai criar-me embaraço,
E a ti não cria tampouco,
Pois se o mundoé um búzio oco,
Será, no final da dança,
Um retrato de criança
Desenhado por um louco!
 
 
Não vou traçar paralelos,
Amigo Mário Quintana,
Entre a poesia pampeana,
De versos rudes-singelos
E esses teus versos tão belos,
Apenas enaltecê-los,
Pois são os mesmos sinuelos
Do mesmo encantode amor
Um-das pétalas da flor!                                   
Outro-de loncas com pelos!
 
É o payador missioneiro,
Do garrão do continente,
Cujo verso é diferente
Porque é um verso galponeiro,
É, Quintana, companheiro,
Frincha da mesma janela,
Porque se a poesia é bela
Se tem graça e tem entono
A poesia não tem dono
É de quem se adonar dela!
 
E quando esse mundo arrasado
Pelo fogo da loucura,
Desnorteada a criatura,
Todo esse mundo queimado.
Mestre, eu irei ao teu lado,
Ordenança de poesias,
Tu-cantando as geometrias
Que fazes com teu talento,
Eu-payador me contento
Namorando as Três Marias!
 
O poeta Mario Quintana faleceu em 5 de maio de 1994, há 25 anos, portanto. Julgamos que para uma carinhosa homenagem, nada melhor que os versos elegantes do nosso payador maior, Jayme Caetano Braun, que faz um maravilhoso reconhecimento a Quintana.
Jayme consegue amarrar no mesmo laço a homenagem e a ensinança humana e solidária do respeito entre os artistas que, por vezes, fazem críticas, não valorizam os colegas poetas, músicos e cantores, deixando claro o viés de ciúme, mesmo inconsciente, presente nesse meio. Os artistas estão nesse mundo para humanizá-lo com sua arte, precisam cultivar uma alma maior, um amor maior que nos leve a sermos uns com os outros e não contra os outros.
 
Continuemos aprendendo com Jayme e Quintana.
 
(Peço perdão ao Jayme pelo atrevimento em retirar alguns versos da payada)
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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