27/01/2014 às 15:09
DE REPENTE, APRENDI COM MEU ALUNO

               Acho o sábado o melhor dia da semana. O sábado não é como o domingo, não é como a segunda-feira, nem a terça, nem a quarta-feira. Não é igual a nenhum outro dia. O sábado não é como o domingo porque o domingo é um dia muito falso, muito enganoso.

                 O domingo já nasce enganando a gente. Quando ele começa, tudo é devagar, lento, leve. É um crime acordar cedo no domingo. Mesmo que tenhamos ido dormir cedo na noite anterior, acordamos com cara de mal-dormidos, sonolentos, espreguiçando daqui, espreguiçando dali, até que começam os preparativos para o almoço, passos, conversas, gritos, gargalhadas, carros, freadas, buzinas, futebol, fogos e, então, percebemos que fomos enganados pela suposta leveza do domingo. E pra completar, começa a fechar-se a tarde...Vem a tardinha melancólica,  como um gemido doído, como se o  dia começasse a chorar seu próprio fim, nostalgicamente, talvez mais pela perspectiva da segunda-feira, quando todas as batalhas da vida se reiniciam, do que pelo fim do domingo, que nunca é lá estas coisas.

                Mas eu queria mesmo era falar do sábado. Da beleza espetacular do sábado. O sábado já nasce sob bons auspícios. A sexta-feira é legal porque já sentimos os presságios do sábado. Faça chuva ou faça sol, o sábado é pura luz. O sábado é a  vida beijando serena e terna as faces da humanidade, como borboleta pousada sobre a flor. No sábado, a vida se mantém latente, inexorável, resistindo a qualquer prenúncio de seu fim. Talvez o sábado seja melhor que o domingo, por ser o que vem antes, por que o antecede. E as coisas são assim mesmo: o antes é sempre melhor que o durante e o depois; O melhor da festa está nos preparativos do que na festa em si. O antes é construção de imagem, fantasia, vibração e não há nada mais fantástico que o imaginário, o sonho, o antes.

                Pois foi num desses sábados plenos de vida, que estive descansando no interior, às margens do arroio Pessegueiro.Era uma tarde mormacenta. Pela manhã garoa leve, à tarde, sol escaldante.  Estava na rede, aproveitava o balanço enquanto lia “Defeitos Escolhidos”, do Neruda, quando ouvi barulho de carro, coisa rara naquelas paragens. Ouvi quando o   visitante foi recebido por meu esposo, mas sem muita curiosidade, continuei lendo Neruda. Minutos após, levanto os olhos e vejo aquele trabalhador, vestindo seu grosso macacão de brim, de braços abertos, vindo ao meu encontro. “Olha só, onde venho encontrar minha professora!” exclama o inesperado visitante. Assim me abraçou meu ex-aluno.Conversamos alguns minutos, lembramos outros tempos, rimos bastante. Foi, no entanto, refletindo sobre o que meu aluno  falou, ao dar notícias de seus pais,  que aprendi, de repente,  uma sábia lição:

                               - Olha professora, a minha mãe está bem de saúde. Ela se ocupa cuidando do meu pai. O meu pai está bem, dentro do possível. O enfisema tirou-lhe setenta por cento da capacidade respiratória. Ele usa oxigênio para auxiliar na respiração. Em casa usa um aparelho grande. Quando sai, carrega um pequeno. E vive feliz e nós vivemos felizes. Está doente? Está. Tem atendimento? Tem. Está vivendo? Está. Pode ser feliz? Pode. Assim fizemos um pacto: Vamos aproveitar a vida. Vamos aproveitar todos os momentos. Vamos ser felizes que isto é o que importa. Nada deve atrapalhar-nos de sermos felizes, nem a doença. Combinamos, todos nós, em nossa família, que vamos ser felizes. Vamos viver e ser felizes.

               Fiquei ouvindo aquilo, olhando para ele encantada. Meu aluno, que de repente virara meu mestre, se despede e sai. Permaneci ali, pensativa, reflexiva, silente. Recolhi-me, conversando comigo mesma. Vi Guimarães Rosa coberto de razões ao definir “mestre” como “alguém que de repente aprende”.

                De repente, aprendi com meu aluno que ser feliz ou infeliz, lamentos ou sorrisos, é uma postura, é uma escolha. Que não se pode perder um tempo grande com coisas pequenas. Que tudo, nesta vida, tem a dimensão, a intensidade, a importância que nós atribuímos. Que, se não cuidarmos, a vida passa rápido demais e corremos o risco de passar a  maior parte dela sem  aproveitarmos o que ela tem de melhor,  como a conversa com os amigos, o sorriso dos filhos, dos netos, os abraços fraternos.

                 De repente, aprendi com meu aluno, a olhar o mundo assim, num sábado lindo assim, e fiquei sorrindo e feliz assim.

Fonte: Guiomar Terra dos Santos– Colaboradora do jornal A Notícia

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