17/06/2014 às 14:03
. UMA PESSOA AOS CINQUENTA ANOS

Uma pessoa aos cinquenta anos já viveu meio século. Para algumas dessas pessoas apenas passaram–se vinte anos. Outras, no entanto, carregam a carga do século completo. Tudo depende de como vemos passarem os anos, como vemos os problemas, as dificuldades, de como ocupamos nosso tempo no trabalho e fora dele,de como cuidamos de nossas vidas ou não cuidamos.
Uma pessoa aos cinquenta anos pode ter mais cinquenta para viver.Para alguns, depois dos cinqüenta, poder viver mais cinqüenta é bom, é ótimo. Para outros, aqueles que se arrastam, que deixaram de ver estrelas no céu, flores nos bosques, esperança na juventude, viver mais cinquenta anos é um suplício, uma condenação.
O certo é que, dos que vivem com cinqüenta anos ou mais, quatro perfis podem ser desenhados.
Em um grupo estão aqueles que pensam ter cumprido seu tempo e sua missão na terra. Indiferentes, esperam viver com uma aposentadoria tranquila, no balanço de uma cadeira de papai ou de mamãe, esperando, na monotonia quotidiana, o dia em que a morte irá chegar.

Noutro grupo estão aqueles que, durante uma vida inteira, destilaram fel, olharam o mundo com os olhos de punhais, usaram a palavra como instrumento de agressão, instrumento para espalhar o lado amargo da vida, explorando defeitos, sem esforço para ver qualidades. Passaram a vida inteira sem poder ser feliz, pois a incapacidade de estabelecer relações harmoniosas com o outro e com seu próprio eu, impossibilitaram a fraternidade, a paz, a amizade sincera, o amor transcendente, o sentido para a vida. Passarão os restos de seus dias inúteis, incapazes da esperança. Na contramão do mundo nada fizeram para melhorá-lo, deixarão marcas doídas nas pessoas, seu negativismo em nada contribuiu para deixar o mundo melhor.
Num terceiro grupo, estão aqueles que só viveram para acumular bens materiais, cujo excesso de trabalho, ou na exploração dos outros, ou no costumeiro jeitinho fácil de enriquecer, não tiveram tempo para viver.

Já um quarto grupo abriga pessoas de alma leve que durante seus cinquenta anos, acumularam sabedoria, aprenderam e ensinaram a viver. Desenvolveram a capacidade de resiliência. Entendem e ensinam que em tudo há possibilidade de superação, em tudo é possível dar a volta por cima. Olham o universo, os fatos, as gentes, entendendo o constante estado de transição. Problematizam o real para transformá-lo. Engajam-se na busca de justiça social, sem ranços. São felizes na leitura de um bom livro, ao ouvir uma música, ao ler um poema, no abraço do colega, na presença dos filhos, dos netos. São gratos pelo sol, a lua, as estrelas, a chuva, a terra molhada, o vento sul, a primavera, o verão, o outono, o inverno. Colhem a rosa vermelha da paixão todos os dias e nem sentem as picadas de espinhos protetores. Estes são sábios e não podem nunca ser chamados ingênuos, pois sábios são os que conseguem ser felizes. Para estes, cinquenta anos não pesam. Cinquenta anos e mais cinquenta anos é pouco para o muito que desejam realizar, é pouco para realizar seus sonhos. Quando morrerem, levarão no rosto a expressão da ternura e seguirão tranquilos, levando ainda consigo um punhadinho de utopia, para que esta rasgue a terra em sua prenhez e germine. Estes, os eternos jovens.
É neste último grupo que vejo os educadores. Nos grupos anteriores, há muitos professores na frieza de seu tecnicismo. Mas no grupo dos educadores, no quarto grupo, estão os mestres, os sábios, que eternamente jovem, entendem os jovens com quem trabalham, os acolhem em relações de ternura e exigência, em alegria e esperança: Entendem que há muita coisa dura, muita coisa doída no mundo vívido, vivido, mas que uma relação fraterna, amorosa, pode tornar a vida mais amena, sair do estado de apatia e ir ao encontro do desejo. O desejo que move o coração, impulsiona o homem, acende a esperança.
Para tal, há uma situação “sine qua non”. Os educadores precisam estar situados no quarto grupo. Precisam abandonar todo e qualquer resto de ranço no fundo de seu coração, mexer com água parada no fundo do poço, energizar-se, para poder energizar.. Não semeia paixão quem não a tem.Não transcende felicidade quem não a tem. Não cria esperança nos jovens e nas crianças, quem não for comprometido com a busca de um mundo melhor, quem não se perguntar todos os dias: para que serve a minha vida? Para que serve a minha aula? Sempre atentos, pois ”Há de se cuidar da vida/Há que se cuidar do broto/Pra que a vida no dê flor e fruto”. Cuidemos das crianças! Cuidemos de nossas juventudes! Cuidemos de nós mesmos, antes, durante e depois dos cinquenta.
As pessoas com mais de 50 anos, na profissão de educadores,
são os esternos aprendizes. Aprenderam a aprender permanentemente. Aprendem com os alunos, aprendem com os pais, aprendem com os jovens educadores que aparecem nas escolas todos os dias. Têm, no entanto, muito, muito a ensinar aos jovens educadores, desde que estes tragam consigo o encantamento, a vontade de aprender a fazer, servindo-se da sabedoria dos 50 anos de que-fazeres dos mais antigos.
Muitas são as dificuldades, mas no amor tudo podemos. O amor não mede dificuldades, nos move, nos impulsiona ao novo. Quando amo, sigo o que diz o poeta”Se tenho sede, não saio a suspirar./Cavo um poço e bebo a água com as mãos./Colho o que pranto. / E a quem amo, amo tanto, amo tanto”.

 

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