26/02/2013 às 08:49
OS EDUCADORES: ANDARILHOS DA ESPERANÇA

Oportuno se faz que justifiquemos o título acima, que denomina o Encontro de Abertura do Ano Letivo da Rede Estadual, na 32ª CRE. Comecemos pela retomada dos significados das expressões “andarilho” e “esperança” para darmos a elas o enfoque que queremos lhes dar.
“Andarilho”, denotativamente, significa aquele que anda muito, que anda por muitas terras, que gosta de andar de um lugar para outro. Noutros tempos, eram chamados andarilhos as pessoas que levavam cartas e notícias para pessoas distantes.
“Esperança” significa espera. Fé, confiança de conseguir o que se deseja. “Estar de esperanças” diz-se da mulher que encontra-se grávida.
Podemos perceber que são aparentemente palavras antagônicas: andar e esperar. Que enfoque, então, estamos dando? Ora, estamos empregando esperança, no sentido usado por Clarice Lispector: “A esperança não é para amanhã. A esperança é este instante. Precisa ser dado outro nome a certo tipo de esperança, porque esta palavra significa espera, e a esperança é já.”.
Também gosto muito desta outra manifestação poética, que lamento não saber o autor, mas que muito nos diz: “A esperança não murcha. Ela não cansa; também com ela não sucumbe a crença. Vão-se sonhos nas asas da descrença, voltam sonhos nas asas da esperança”.
Voltando ao tema do seminário, podemos nos perguntar: afinal, o que tem isto a ver com os educadores? Talvez a resposta esteja neste pensamento de Paulo Freire: “Não é, porém, a esperança um cruzar de braços e esperar. Movo-me na esperança enquanto luto e, se luto, com esperança, espero.”.
Pensamos que os professores, os educadores, são andarilhos, são andarilhos da esperança, pois são eles os que andam e lutam, os que lutam e andam, carregando a luz da esperança consigo. Porque professor necessariamente precisa ser alguém que carregue o desejo de mudança, o portador da utopia, o que consegue operar o inédito, um inédito que pode ser sempre o inédito viável, para pessoas ousadas, criativas, esperançosas, capazes de fazer sempre o novo, em cada ano novo, em cada novo aluno.
Para os educadores a esperança não significa espera, significa luta para plantar sempre a semente da esperança. O educador que não for esperançoso não é educador, não deve assumir turmas, se não é capaz de levar entusiasmo, encantamento, esperança, despertar paixão pela vida, pelo trabalho, pelo conhecimento, pelas gentes, pela música, pela poesia, pelas estrelas, pelo riacho, pelo engajamento nas lutas, neste mundo injusto que podemos e devemos modificar, sob pena de termos cruzado pela terra em vão, vivido por viver, e morrer encolhidos no medo do novo, mergulhados na mediocridade, sem ser feliz e sem levar outros a construir história e a serem felizes.
Os educadores são os andarilhos da esperança sim, porque são os incansáveis caminheiros que levam consigo não a informação, mas o conhecimento, e a forma de construí-lo; levam consigo a capacidade de formar cidadãos, a capacidade de gerar o prazer de descobrir, frente a tantas crianças, jovens e adultos que ainda se encantam com o professor, na certeza de que a máquina jamais o substituirá, porque ele faz humanas as relações, mostra sempre uma luz além do horizonte, depois mais outra, mais outra e outra mais.
Aprendi do Dr. J. J. Camargo, médico cirurgião, do qual sou assídua leitora que, em qualquer idade “a euforia é cria da descoberta. O entusiasmo é fruto do novo. E a empolgação é babá da esperança.” (ZH – 23/02/2013).
Paulo Freire, nosso grande mestre, considerava-se o Andarilho da Esperança, pois em todos os países por onde fez suas andarilhagens, deixou a marca da pedagogia que alfabetiza as pessoas para ler e escrever o mundo, e a clareza da opção política coerente com a causa dos oprimidos.
É o próprio Paulo Freire quem relata uma passagem com um grupo de trabalhadores que iniciava a alfabetizar:
“Como estás João, tudo bem?”
João se calou, tirou o chapéu, olhou o horizonte e por fim disse: “Não consegui dormir. Toda a noite sem pregar os olhos!” Mais palavras não saíram da sua boca, até que ele murmurou: “Ontem eu escrevi meu nome, pela primeira vez!”.
Concluo, professores, educadores, andarilhos da esperança! Tenhamos clareza do que queremos com nossos alunos, para nossos alunos, para o mundo que desejamos construir, sem esquecer que:
A esperança é já!
Movo-me na esperança enquanto luto!
Vão-se os sonhos nas asas da descrença, voltam sonhos nas asas da esperança!
Estamos todos de esperança! “Grávidos”. Grávidos de esperança: De nós muitas outras esperança nascerão!
Um abraço fraterno!
 

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