10/03/2015 às 10:29
MULHERES, É PROIBIDO CHORAR!

Como se não bastasse a afirmação de Aristóteles de que “a mulher é um homem inferior”, na origem da humanidade, segundo a fundamentação bíblica, vamos encontrar a explicação de que somos descendentes de Adão e Eva e que Eva foi feita com uma costela de Adão.
Se Eva foi feita da costela de Adão, Eva não existiria se não existisse Adão. Saída da costela, Eva era carne e Adão, cabeça; Sendo cabeça – raciocínio, enquanto Eva, sendo carne – sedução. Sedução tal que convenceu Adão a comer o fruto proibido da árvore da vida e, assim, foram expulsos do paraíso por Deus, condenados a ganhar o pão com o suor de seu rosto, e Eva a sofrer pelos seus filhos e viver sob a autoridade de um marido. Inicia-se, então, a cultura da inferiorização da mulher e de sua culpabilização. Eva... Não chore, Eva!
Seguindo nesta linha bíblica, vamos encontrar a presença de Maria, que cede seu ventre para abrigar e dar à luz ao salvador da humanidade: Jesus Cristo. Maria aparece agora como um ser abençoado pela maternidade, mas desde o nascimento de Jesus, cumpre a pena destinada a Eva, sofrendo com e por seu filho. Maria... Não chore, Maria!
Mais adiante, Maria Madalena aparece como mulher adúltera. Considerada pecadora, está para ser apedrejada, quando aparece Jesus e enfrenta a multidão dizendo: Aquele que não tiver pecado algum, atire a primeira pedra! Novamente a mulher é pecadora – adultério; discriminação, culpabilização. Madalena...Não chore, Madalena!
O certo é que não faltam histórias e personagens, antigas e modernas, que marcam as lutas, as dores e as conquistas das mulheres, tanto reais quanto de representações simbólicas. No romance Iracema, por exemplo, José de Alencar, usa Iracema, a mais bela índia, que se apaixona por Martim, guerreiro português, e deixa sua tribo, para simbolizar a exploração de nossas riquezas pelos estrangeiros. A mulher é a simbologia da exploração, da renúncia, da entrega servil. Iracema... Não chore, Iracema!
Mesmo que, na sociedade atual, enfrentemos o reducionismo do sentido do 8 de março, que vem sendo substituído por homenagens e festividades, convém que ocupemos a data com uma boa reflexão sobre as conquistas históricas que vem sido realizadas pela luta de mulheres, e das lutas que ainda precisamos empreender, evidenciando a superação da grande chaga da falta de respeito e da violência contra as mulheres.
É interessante que nos detenhamos nos números e, mais do que isto, façamos uma leitura do que estes números significam, representando uma crueldade alarmante. Estatísticas mostram que em cada 2 minutos 5 mulheres são agredidas. Nos últimos 10 anos, foram assassinadas violentamente 43 mil mulheres.Só nos anos de 2011 e 2012, os registros de estupro chegam a 12.000 e 50.000 respectivamente. Tudo, tudo isso no Brasil, sim. Em São Luiz Gonzaga, só em 2014, foram registrados, na delegacia local, 268 casos de violência contra mulheres.
Por tudo isso, neste 8 de março, reflitamos e unifiquemos a bandeira da luta no combate a violência contra as mulheres.Uma luta que não pode cessar enquanto soubermos de uma única mulher com olhos roxos. Uma mulher ou uma menina estuprada. Uma mulher diminuida, desrespeitada, ultrajada. Basta de culpabilização da vítima. Não chorem Evas, Marias, Madalenas, Iracemas. Mulher nenhuma deve chorar. É levantar a cabeça e construir outra história. Não há tempo para chorar! É proibido chorar!
Guiomar Terra Santos – guioterra@yahoo.com.br

 

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