31/03/2015 às 17:20
A VIDA, ESTE DESCORTINAR

A vida, este descortinar quotidiano de espantos e rotinas, em seu constante galopar vai nos levando a construirmo-nos em nossas alegrias, penas e ofícios.
As alegrias nos tornam doces e dóceis; as penas, amargos ou ternos: os ofícios, caminheiros em contatos e vivências com outras pessoas: umas – pedras duras no caminho; outras – pérolas, cristais, ouro, prata.
Pois foi nessa caminhada no ofício de professora que conheci esta pérola chamada Newton Alvim. Minha filha, então com oito anos, passara a semana lendo um livro chamado Bombachas Voadoras, e só falava nisso. Acabei pegando o livro e lendo-o também, após ela contar-me que havia transformado a história em um poema que iria recitar para o autor, no dia seguinte, no evento Autor Presente, da E.E.Miguel Fernandez, em Bossoroca, enfatizando que eu não poderia faltar.Mesmo atarefada, pois estava preparando o Autor Presente, com Antonio Holfeldt trabalhando a realidade indígena em Porã, com meus alunos de Ensino Médio (Que saudade!) lá me fiz presente.
Sincera como sou, não vou deixar de confessar que decepcionei-me quando vi o autor de Bombachas Voadoras, pois eu o imaginava um velhinho gagá, e me aparece aquela figura jovem, sorriso aberto, simpático, bonachão. Misturada ao público, ouvi as produções literárias das crianças.Emocionei-me e me enchi de orgulho quando a Vanessa disse seu poema lindo sobre o menino que sonhava ter bombachas. E fui me encantando, me encantando. Encantou-me e enterneceu-me a atenção com que o Newton Alvim ouvia, sorvia, se embevecia com cada expressão daquelas crianças e, também, o carinho com que as crianças ouviam o pronunciamento delicado, profundo, penetrante deste autor, que, neste único contato, construiu muitos leitores.
Doutra feita, então como Secretária de Educação de Bossoroca, onde dediquei a maioria das ações para arte-educação, precisava constituir uma comissão julgadora para o Varal de Poesias, onde concorriam alunos de todas as escolas, próximo de cem trabalhos. Quem iria dedicar tempo, gratuitamente, para esta exaustiva tarefa? Convidei minha amiga Ivone Ávila e esta autoridade, chamada Newton Alvim, que largou seus ofícios e foi em meu socorro. E lá, com a humildade que lhe é peculiar, trabalhou o dia todo, selecionando os poemas para o Varal.
Agora, sou pega de surpresa pela notícia de que nosso querido Alvim está transferindo residência de São Luiz Gonzaga. Fiquei triste! Não tem como não ficar triste. É uma lacuna que se abre na comunidade local e regional. Com sua produção jornalística e literária, Alvim influenciava positivamente toda esta comunidade. Seus escritos tanto mexem com as crianças das escolas, como com os jovens, adultos e velhos. Não tenho conhecimento de alguém que,com a palavra escrita, influencie tanto, tantas pessoas, durante tanto tempo, deixando, agora, uma lacuna latente, doendo tanto.
É inegável a falta que a comunidade sentirá do amigo, do colunista, do escritor. Alvim era e é um orgulho para São Luiz Gonzaga e especialmente para o Jornal A Notícia, pois qual cidade, qual jornal da região tem um jornalista que se aproxime da qualidade desse nosso jornalista?
Qual jornal tem um jornalista escritor que tenha produzido obras como Dioguinho Manta, Silveira Martins, Pinheiro Machado, Contra duas Bandeiras-A história de Sepé Tiaraju, Bombachas Voadoras?
Qual jornal possui um colunista com um português exímio, que nos põe em contato com fatos da realidade atual, com o mundo do cinema, com a história, com a literatura, com a arte enfim?
Qual jornal possui um jornalista palavra macia, veludo, seda, que com visão aguçada, que, com os olhos do coração feito punhais, introspecta acontecimentos, fatos reais ou simbólicos, e os apresenta de forma terna, pura, cristalina, nos ajudando a ver e a ler o mundo?
O Alvim era, sem dúvida, a ternura corporificada do jornal A Notícia, capaz de formar enquanto informa, carregado de sentido humano e humanizador.
Enfim a vida em seu galope vai levar o Alvim a outros pagos, porque assim é seu desejo. Ele ainda é o guri que continua sonhando com bombachas voadoras, para voar alto, cruzar novos horizontes, pousar em outro palco, ter o aplauso de outro público.
É a vida se descortinando. Desde já, saudades.
GuiomarTerra Santos
 

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