11/10/2012 às 16:51
Vamos tomar um mate, dia desses?

Arthur não tinha Facebook.

 

Ele não era muito ligado em tecnologia, apesar de ser um jovem adulto de 34 anos.

 

Não até aquele dia.

 

Morava com seu filho em um pacato bairro de São Luiz. A ex-mulher havia ido embora depois da separação, e o menino de 12 anos resolveu ficar na cidade com o Pai, por causa dos amigos.

 

 

Quando guri, Arthur jogava taco na 13 de Maio e tocava as campainhas da cidade. Tomava banho de chuva e sempre pulava o muro do Rui Barbosa para jogar bola nos fins de semana.

 

Dizia isso todo o dia para Guilherme.

 

- Tu não sabe se divertir, filho. Não deveria ter te dado esse Notebook de Natal.

 

E ouvia: – Ah, pai. Não viaja. O “Feice” é muito massa. E além do mais eu uso pra falar com a mãe, tu sabe.

 

O guri voltava da aula e entrava no tal de “Feice”. Só saia dali pra tomar banho. Jantava na frente do computador e estudava pelo Google. Todo o dia. O dia todo.

 

Arthur se incomodava com aquilo mas não falava nada, pois sabia que era a forma mais fácil do filho se comunicar com a mãe.

 

Mas um dia Guilherme lhe chamou:

- Pai, vem aqui.

- O que foi, filho?

- Tu conhece essa mulher? Perguntou Guilherme, entrando no perfil de uma morena.

 

Arthur reconheceu na hora. Era Fernanda. Sua eterna paixão platônica de adolescência.

 

Ficou encabulado, mas disse: – Rrr. Sim, filho. Ela estudou comigo ali no Rui. Por quê?

 

- Por que ela me adicionou no Facebook perguntando se eu era teu filho.

 

Arthur coçou a cabeça e ouviu: – Senta aqui, vou fazer um perfil pra ti. Todas as pessoas da tua idade tem, só tu que é cabeça dura. Assim tu vai poder reencontrar os teus colegas e parar de me incomodar. Tu vai ver que é massa. Muito massa.

 

Ele sentou, ainda desnorteado com a imagem de Fernanda. Ela estava ainda mais linda do que lembrava.

Seu filho foi lhe perguntando algumas coisas, e em menos de dois minutos, ele já estava lá. No Facebook.

 

- É simples, pai. Deixei a senha salva, é só tu por o teu nome aqui e entrar.

 

O tempo foi passando e Guilherme foi lhe ensinando como fazer. Aos poucos ele começou a gostar daquilo, e sempre que o filho não estava em casa, Arthur passava horas conectado, conversando com os velhos amigos.

 

Até que um dia ele foi surpreendido por uma pergunta: – Pai, por que mulher menstruada não pode tomar mate?

 

- Hãm? Como assim, filho? De onde tu tirou isso?

 

-É pai. É que as vezes eu entro no teu Feice pra dar uma olhada, e ontem eu li uma conversa tua com aquela Fernanda…

 

O pai corou.

 

- E eu vi que ela disse que tava de férias em São Luiz. E daí tu convidou ela pra tomar uns mates, mas ela disse que não podia por que tava menstruada.

 

- Por que mulher menstruada não pode tomar mate, pai?

 

Arthur pensou, enviesou a sobrancelha, e então disse:

 

- Eu sei lá, filho. Mulher é estranha mesmo.

- Elas também não podem nem bater maionese… 

Graduado em Biomedicina, com habilitação em Patologia Clinica. Plantonista no Hospital de Caridade de São Luiz Gonzaga. Editor e dono do blog Madruguei Desatinado (www.madrugueidesatinado.blogspot.com).

Email: gunthersott@hotmail.com

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