15/08/2012 às 17:04
Uma comédia nada romântica.

Eu já tentei fazer como nas comédias românticas.

E, desde já, deixo o aviso à vocês: Nem sempre dá certo.

Tudo começa quando a mulher olha um filme, e lá, o galã, além de ser bonito, charmoso, e rico, se apaixona pela mocinha. O início do filme transcorre sem sobressaltos, é amor puro, e felicidade plena.

Mas, lá pelos 37′ do segundo tempo, uma bomba cai. Ela descobre que ele o enganou no começo, ou eles brigam por bobagem. Mas – e aí está o que impressiona as mulheres nesse tipo de filme – faltando três minutos para os créditos subirem, o galã faz algo incrível, como uma chuva de rosas de um helicóptero, um outdoor na freeway, uma declaração de amor em meio a final do Superbowl, um pedido de casamento ao vivo na televisão. Sei lá.

E, dai, pronto. As mulheres normais passam a acreditar que todos os homens normais também devem fazer isso.

Pois bem, isso foi o que eu pensei naquele momento.

Existia um clima ali, não dava pra negar. Nos conhecíamos há muito tempo, mas nossa relação havia se estreitado à pouco. Nos falávamos muito, mas nos víamos pouco.

E eu ainda não tinha conseguido entender bem o que era, e, naquela madrugada, percebi que havia chegado a chance.

Exatamente 01:27, meu telefone toca: ELISA.

- Oi!
- Oi, tudo bem? Diz ela.
-Tudo bem, e aí?
- Sim.

Pela voz eu percebi que era mentira. Alguma coisa a incomodava.

Insisti, perguntei o que era, e ela não disse.

Só me falou que estava triste, solitária, que não acontecia nada muito estimulante em sua vida.

Vi a oportunidade, e disse.

-Elisa, já te ligo, espere acordada.

Sai pela casa, acendi todas as luzes. Pensei em algo legal para fazer, mas, em São Luiz Gonzaga, madrugada de uma Quinta-feira, eu não encontraria nada na rua. O meu presente teria de ser achado em casa.

Encontrei uma pequena caixinha de anel, vazia: Peguei.

Achei um baralho velho no fundo de uma gaveta: Peguei.

Papel e caneta. Tudo planejado.

Enquanto eu separava todas as cartas de copas, e recortava os corações, me sentia muito esperto: – Ela vai entender. O que importa é o gesto.

Abri a caixinha, coloquei dezenas de pequenos corações vermelhos ali, escrevi qualquer coisa, e sorri.

Fiquei feliz por ter tido aquela ideia. Por ser arrojado. Por tentar fazer algo por ela.

Liguei: – Tô indo aí. Me explica bem onde é.
- É aqui para baixo do Rui. Meia quadra, uma casa rosa.
-Tá bem, tô indo. Respondi, pegando o presente.
- Mas eu já tô indo dormir. E desligou.

Encarei aquilo como um sinal de medo, mas não liguei.

Fui de apé, era perto. Era romântico. Sentia como se houvesse câmeras me filmando, em meio a uma comédia romântica.

E a musica que tocava de fundo era: Coldplay – Fix you.

Cheguei na frente do Rui, e então liguei. Queria saber bem certo onde era.

Primeira tentativa: nada.

Andei mais um pouco, até a frente do CNEC, liguei.

Nada.

Andei mais meia quadra, liguei.

Mais uma, mais duas. Ligando.

Voltei.

Comecei a ficar nervoso.

Andava para lá e para cá naquela rua, às duas da manhã.

Ligando, olhando. Ligando, olhando.

Espichava o pescoço por sobre o muro de todas as casas rosas, tentando ver uma luz, talvez uma silhueta na janela. Uma porta aberta.

E, então, a música de fundo muda. Sai o Coldplay e entra um AC/DC.

Não entendo, então olho para trás. A 30 metros de mim, o guardinha da rua vem, com o passo apurado.

Viro, e saio andando, de mansinho. Passo a primeira arvore, e apuro.

Apuro, apuro. Quando me dou conta, estou correndo.

Olho para trás e vejo um homem com cerca de 1, 80 m em disparada, com um cacetete na mão e um apito na boca, soprando que nem louco.

- Pii. Piii. Para aí. Para aí.

A música sobe, e eu corro. Corro, corro.

Atiro a caixa cheia de corações de copas e um bilhete carinhoso em um terreno baldio, e isso o distrai.

Ele para para ver o que é, talvez pensando que fosse drogas, ou produto de um roubo.

Essa foi a minha sorte, senão ele ia me pegar.

E como que eu ia explicar para ele que estava, às duas da manhã, procurando a casa de uma mulher para dar-lhe uma bobagem como aquela?

Cheguei em casa suado, e ri.

Ri muito.

Ainda bem que era escuro, e o guarda nunca irá me reconhecer.

Mas tenho certeza que ele conta essa história para todo mundo:

- O dia que eu dei um corridão num otário conquistador.

Ele fala orgulhoso. Eu, envergonhado.

Pelo menos eu tentei ser como nos filmes.

Só que a minha comédia não foi nada romântica.

Graduado em Biomedicina, com habilitação em Patologia Clinica. Plantonista no Hospital de Caridade de São Luiz Gonzaga. Editor e dono do blog Madruguei Desatinado (www.madrugueidesatinado.blogspot.com).

Email: gunthersott@hotmail.com

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