10/01/2012 às 17:10
A cabeça de uma mulher

“Nem a lua afasta o medo de passar a noite só! Volta para mim? Marcos.”
Muriel colocou o cartão no envelope e devolveu-o ao seu lugar, entre as duas tulipas mais bonitas daquele imenso buquê. Se esforçou para sorrir ao entregador, agradeceu, e fechou a porta. Escorou-se ali mesmo, e, segurando aquelas flores brancas envoltas em um papel azul enrugado, voou.
Muriel, morena do cabelo encaracolado; mais linda que a Terra, vista da lua. Muriel, do sorriso cintilante, das covas rasas, da pele lisa e do olhar desconfiado. É essa a mulher que segura as flores na altura do esterno, sem saber o que fazer. Ela gira os olhos por toda a casa, sem se mover.
Milhares de fotos, espalhadas por incontáveis porta-retratos, agiam como filmes em sua cabeça. Lembranças de cada centímetro de sofá pipocavam em seus olhos, como janelas pop-up de sites chatos. O perfume das flores subia e a fazia esmorecer. Então, veio a seriedade. Não era tão simples.
- Como Marcos pensou que uma frase bonita e uma duzia de tulipas perfumadas me fariam esquecer de tudo o que ele fez?
- Ele pode escrever um livro, que mesmo assim não vai conseguir apagar as palavras ditas de cabeça quente. Aquelas que vem sem peso. Que burlam o filtro existente entre o córtex cerebral e a garganta, e que não chegam nem perto de serem freadas pela consciência e consequência.
-Essas machucam. E seria bom se esse filtro nem existisse. Assim poderíamos conhecer realmente quem nos rodeia, sem influência de falsidades e relevâncias. Ah, eu já teria dado aquele tapa nele há muito tempo.
Ele não vai me dobrar assim. Eu vou é pôr isso no lixo.
Ela ensaia o primeiro passo e então vê Schofis, seu Chow Chow de 5 meses, fitando-a sem entender nada.
“Esse aqui é para você parar de reclamar da solidão. Não é tão bonito como eu, mas ao menos não precisa trabalhar o dia todo.” Foi o que ele disse no dia em que chegou com aquela caixa de papelão. Ela lembra bem, pois foi a gargalhada mais linda que deu nos últimos anos. Muriel arrasta o pé para trás, e fica.
- Mas isso tudo não pode ter sido tão insignificante.
- Eu não consigo acreditar que todas as coisas que ele me disse eram premeditadas, que os gestos eram calculados e que os momentos eram irrelevantes.

- Ninguém consegue fingir aquele calor.
-Ele me ama. Eu sei. Foi só um erro.
- Talvez ele esteja mesmo certo.

- ” Você é muito indecisa, Muriel. Eu me esforço para te surpreender e te propor coisas legais, mas você nunca me dá a resposta esperada. Diz que não sabe, que precisa pensar. Arranja uma desculpa, mas depois se arrepende. Você coloca muitas coisas em risco assim.”

As palavras de Marcos soaram em sua cabeça.

- Fui uma boba, quem sabe eu seja mesmo assim, e realmente coloque coisas de valor em risco por isso.

Ela ensaia mais um passo, espalhando o olhar pela casa, tentando encontrar um vaso de plantas vazio, mas pára.
Ela não tem certeza.

Então baixa os olhos para Schofis e diz:

- Já que você ouviu tudo, me diga: Água ou lixo? Indaga Muriel, apontando o dedo para as tulipas.

Se pudesse falar, Schofis a chamaria de louca.
Mas ele não pode.

Ele só pode tapar os olhos com as patas.
Sorte dele. 

Graduado em Biomedicina, com habilitação em Patologia Clinica. Plantonista no Hospital de Caridade de São Luiz Gonzaga. Editor e dono do blog Madruguei Desatinado (www.madrugueidesatinado.blogspot.com).

Email: gunthersott@hotmail.com

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