29/07/2015 às 11:25
Minha primeira memória literária


Dia desses, recordando o momento e as circunstâncias em que, pela primeira vez, li, de fato, um livro, foi inevitável voltar aos tempos de infância e me lembrar, como se fosse hoje, da cor, do formato, da capa e do cheiro peculiar daquele objeto mágico, que, sem saber, abriria as portas da percepção para a entrada de palavras, ideias, questionamentos e gozos.
Se não me falha a memória, eu devia estar cursando a Classe de Alfabetização (CA) ou a antiga primeira série, lá por meados de 1982 ou 1986, quando a professora disse que teríamos de comprar um livro para trabalhar em sala de aula naquele bimestre. Lembro-me exatamente do dia em que meus pais me deram aquele livro de formato quadrado e com uma capa dura, na qual se lia “Chapeuzinho Amarelo”, de Chico Buarque, e o qual devorei em pouco tempo, tomada pela minha intrínseca curiosidade.
E assim se deu o meu ritual de iniciação à leitura. Não que eu não tenha tido contato com outros livros, cartilhas ou clássicos da literatura infantil antes disso, mas o fato é que aquela fora a minha primeira leitura significativa. E, embora sem consciência na época, a partir daquele momento revelador, eu nunca mais seria a mesma, afinal aquela obra iria influenciar minha personalidade e meu modo de encarar a vida.
Considerado um clássico da literatura infantil brasileira, “Chapeuzinho Amarelo”, de Chico Buarque de Holanda, foi editado pela primeira vez em 1979 e foi relançado em 1997, pela Editora José Olympio, com ilustrações do chargista e caricaturista Ziraldo.
O livro conta a história de uma menina com medo do medo — uma menina amarela de medo — que transforma a fantasia dos contos em sua própria realidade, chegando ao ponto de não brincar, não se divertir, não comer, nem mesmo dormir. Contudo, ao decidir enfrentar o desconhecido, ou seja, “O Lobo”, ela supera seus temores e inseguranças, e descobre a alegria de viver.
Com sensibilidade, Chico Buarque constrói um texto no qual aparece com transparência o valor mágico que o autor atribui às palavras, não só as tratando com maestria ao falar sobre os nossos medos, mas também ensinando as crianças a superarem suas fobias de uma maneira inusitada.
Há bem pouco tempo, trabalhando num projeto de leitura da escola, rememorei aquele meu momento inaugural no mundo letrado e, ao refletir sobre ele, só pude chegar a uma conclusão: viajar pelos meandros interiores da memória, na tentativa de resgatar não apenas os fatos, mas as sensações que eles nos provocaram, principalmente em relação aos nossos rituais de iniciação à leitura, é uma das experiências mais prazerosas que todo educador deveria se permitir a fim de tornar também fascinante a desafiadora tarefa de formar novos e ávidos leitores.
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(*) Luciana Crespo Dutra – Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ.
 

Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ. 

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