21/12/2012 às 12:51
“Zés e músicas de ouro”

uma quinta-feira banal, trancada em casa em meio a súbitas oscilações de humor, estava eu travando novamente um embate com o fatídico cotidiano. Eu devia ou, pelo menos, merecia já estar acostumada com as armadilhas da rotina, mas sinceramente, não sei se, algum dia, conseguirei manter uma relação ao menos amistosa com a mesmice, o tédio e seus inevitáveis transtornos.

Lá fora, o sol já ia morrendo enquanto o telefone tocava indiferente naquela desencantada manhã. Atendi sem vontade e, num gesto quase mecânico, disse: - Alô?
Do outro lado da linha, entre um instante e outro, uma voz cúmplice e suave quebrava o tom taciturno daquele dia. Tanta coisa se passa entre um instante e outro!
Era meu amigo Zé, com seu jeito singular de ser – um dos poucos capazes de despertar em mim sentimentos mais humanos em momentos de entorpecente apatia. Enquanto falava ao telefone, ia me recompondo, me refazendo...

Zé é do tipo de pessoa que parece decifrar minha alma em silêncio e cuja simples presença já é o bastante para fazer-me bem. E, portanto, naquela manhã, não seria diferente. Como se adivinhasse o desencanto que me consumia, preparou-me uma surpresa: do outro lado da linha, ecoou a voz de Jackson do Pandeiro num suingado baião que me devolveu o prazer de “estar no mundo” e poder vivenciar esses fugidios, porém significativos instantes de êxtase. Já não sentia mais o pesar daquela manhã. Aquela canção acabara de modificar por completo meu estado de espírito e, em meus lábios, abriam-se sorrisos gratos como se tivesse recebido um presente – e certamente recebi.

Como disse meu peculiar amigo, de rápidos e fragmentos encontros, “a música aproxima as pessoas!”. Afinal, foi por esse motivo que nos conhecemos e nos identificamos em meio a ideias e gostos comuns. Subitamente, dei-me conta de que os mais expressivos acontecimentos que se sucederam em minha vida se deviam, em grande parte, à música e aos encontros e desencontros advindos dela.

Assim que desliguei o telefone, fui tomada pela desmesurada ânsia de ouvir música, muita música, e comecei por um estimado disco com sambas de Zé Kéti, interpretados por outro Zé (Zé Renato), dois “Zes” de ouro da nossa Música Boa Brasileira (MBB).

Sentada no chão da sala, com o olhar perdido em divagações, lembrei-me de que fora justamente num show de Zé Renato que conheci a pessoa que iria me aproximar ainda mais da música: a cantora Carol Saboya, que, um tempo depois, se tornaria minha professora de canto, e, coincidentemente, foi por admiração a esta que eu e meu dileto amigo Zé Luiz, consequentemente, nos aproximamos.

No fim da tarde, rindo dessa história que mais parece uma colcha de retalhos, só pude chegar a uma conclusão, parafraseando Jackson do Pandeiro: ‘Virge’, como sou grata à música! “Virge, como tem Zé!”

Rio de Janeiro, 16 de março de 1999.

*Luciana Crespo Dutra é carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ.  

Por Luciana Crespo Dutra*

Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ. 

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