23/04/2013 às 16:02
Trem das Cores de Abril

Luciana Crespo Dutra *


Não importa onde estamos, pode ser numa mesa de bar, na estrada, numa conversa entre amigos ou no divã do analista, a verdade é que nossa mente não para de viajar nem um segundo. Sempre estamos divagando sobre coisas simples, que todos nós vivenciamos, pensamos ou sentimos, mas que nem sempre conseguimos partilhar.
Quando menina, tinha o peculiar costume de associar os dias da semana a diferentes cores. Criança tem imaginação fértil e não era preciso muito esforço para pintar, na cor predileta, aquilo que desejasse.
No meu mundinho infantil, o sábado era laranja; o domingo, verde; e, de segunda a sexta-feira, tudo me parecia cinza. Um tempo depois, passei a fazer analogias também entre as cores, os meses e as estações do ano. A primavera era rosa; o verão, alaranjado; o outono me vinha à mente em tons de azul e lilás; e o inverno da minha imaginação mesclava nuances de cinza e marrom.
Na adolescência, ouvia encantada, com olhos de espectadora, a canção Trem das Cores, de Caetano Veloso, que passava como um filme pelos olhos brilhantes da minha mente feraz.
Mesmo não sendo uma estudiosa da psicologia das cores nem da cromoterapia, acho que Freud talvez possa explicar essa minha fixação pelo universo de tonalidades, matizes, tons e entretons.
Hoje, embora já não faça as mesmas associações de outrora, ainda me pego fazendo analogias entre cores, lugares e pessoas. A diferença é que agora os parâmetros para as associações me parecem mais subjetivos. Afinal, muitas vezes, a vida tem a cor que a gente pinta.
É claro que temos “fases como a lua”, fases de preto e branco, fases nubladas, fases mais coloridas e fases de ir além das cores já conhecidas. E, assim como as estações do ano, todas essas fases nos são, de alguma maneira, necessárias. Mas já que a vida anda cinza, cinza demais, vamos colorir nossos dias, porque, como disse Vinícius de Moraes, “as cores de abril não querem saber de dor”.


*Luciana Crespo Dutra – Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga, é colaboradora do Jornal A Notícia; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ. 
 

Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ. 

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