24/06/2013 às 15:50
O fantástico poder da imaginação

Se pudesse escolher, quem ou o quê você gostaria de ser?” Basta fazer essa pergunta a algumas crianças para que mil respostas diferentes surjam à sua frente em poucos segundos. 

Para psicólogos e pedagogos, é brincando de "faz de conta" que as crianças aprendem o que é a vida: experimentam sensações, realizam desejos, lidam com frustrações e se familiarizam com as belezas e as agruras do dia a dia. É como se essas brincadeiras fossem ensaios para o futuro, já que, através da imaginação, elas têm a possibilidade de treinar papéis que vão desempenhar na fase adulta, podendo até inventar desfechos mais adequados para os enredos injustos que, muitas vezes, a vida cria.

O fato é que as fantasias são extremamente importantes na vida dos pequenos e também na nossa, adultos. Fantasiar é fundamental e isso já foi comprovado cientificamente, pois ativa a área responsável pela criatividade no cérebro, fazendo o ser humano testar seus limites, encontrar saídas para problemas e descobrir seu potencial.

É por essas e outras que me questiono sobre o posicionamento de alguns pais ou responsáveis que, “por motivos religiosos”, simplesmente excluem seus filhos de eventos e/ou atividades escolares que poderiam contribuir muito para o seu desenvolvimento cognitivo, afetivo, social e psicomotor.

Segundo a Constituição da República, o Brasil é um Estado laico, ou seja, sem religião oficial. Ora, se o Estado é laico, a escola pública – que é parte desse Estado – também deve sê-lo, uma vez que se trata de uma instituição pública que deve estar preparada para receber quaisquer pessoas com o respeito devido, sem privilegiar nenhuma doutrina religiosa em detrimento de outra. Para a realização de cultos e outras manifestações religiosas, existem espaços próprios, e a escola pública, definitivamente, não é um deles.

Esclarecido isso, é pertinente lembrar que o calendário festivo faz parte do plano de ensino das escolas e é uma ferramenta de apoio na constituição destas como um espaço democrático de interação, inclusão e diversidade sociocultural, que garante, nesses momentos festivos, a reprodução de valores considerados universais na nossa cultura, contribuindo, de alguma forma, para a construção de uma “identidade nacional”.

Sendo assim, não há sentido em privar os filhos de participar, por exemplo, das tradicionais festas juninas escolares, já que elas perderam o vínculo religioso e ganharam um enfoque folclórico, através do qual são resgatados alguns hábitos e brincadeiras, bem como a culinária típica do homem do campo, como forma de comemorar as boas colheitas na safra de milho, nessa época do ano.

Portanto, não vale a pena ficar de fora da história. Independentemente dos hábitos, da religião e dos rituais de cada família, saiba que o mais importante é alimentar a imaginação, pois, como dizia o psicólogo austríaco Bruno Bettelheim, em seu livro A Psicanálise dos Contos de Fadas, sem fantasia não existe a possibilidade de uma boa compreensão daquilo a que chamamos de realidade.  

Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ. 

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