12/07/2013 às 17:46
Da ficção à realidade ou da realidade à ficção?

Um escritor em busca de histórias, ideias, acontecimentos, vida. Uma mulher cheia de histórias, ideias, acontecimentos, vida. Com hora marcada e valor combinado, os dois estabelecem um acordo entre escritor e personagem. E, durante dez dias, é travado e registrado o conflito entre fato e verossimilhança, desejo e delírio, relato e devaneio. Uma ficcionista construída pela própria vida. Esse é o fio condutor do novo romance de Godofredo de Oliveira Neto, intitulado A Ficcionista, e sobre o qual ando debruçada nos últimos dias.

Na verdade, a questão central do livro parece girar em torno de algumas perguntas: quem está no controle do texto? Quem garante a fidelidade da transcrição literal dos fatos que compõem a trama? Quem conta a história: a protagonista, o autor-entrevistador ou o próprio leitor que tem a possibilidade de construir e/ou (re)construir a trajetória solta da personagem principal? E, embora a temática não seja nova, o fato é que tais questionamentos me levaram a refletir sobre a dicotomia realidade versus ficção nas diferentes manifestações artísticas.

Em se tratando de cinema, tenho de confessar meu especial apreço por cinebiografias. Sempre tive predileção por assistir a essas “histórias sobre histórias”, uma representação de alguma coisa que aconteceu de verdade. Analisando bem, talvez essa minha preferência se deva justamente à sedução da dúvida: aqueles fatos narrados aconteceram daquela maneira ou são a versão de alguém sobre aquilo que realmente teria acontecido? Assim, as famosas histórias “baseadas em fatos reais” têm muita força e geralmente se confundem com a verdade, mesmo que elas estejam carregadas de ficção, mesmo sendo, em última análise, obras de ficção propriamente ditas.

O fato é que tanto a literatura como o cinema vivem dessa tensão entre a realidade e a ficção. E, de uma maneira estranha, que a princípio não conseguimos compreender, realidade e ficção se cruzam, provocando impressões que nos confundem e nos fascinam tanto no cinema quanto na literatura.

Como já disse Roland Barthes, “a escritura é precisamente esse compromisso entre uma liberdade e uma lembrança…”. Sendo assim, embora tentemos narrar as nossa memórias da maneira mais objetiva possível, sempre haverá um desajuste entre os fatos a serem narrados e a lembrança desses mesmos fatos. E aí está a beleza da arte: a possibilidade de uma história ser contada e recontada num contexto de total liberdade poética.
 

 

Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ. 

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