10/09/2013 às 09:00
“Desculpe a pobreza!”


“Desculpe a pobreza!” – Foi com essas palavras que eu fora recebida, certa vez, ao adentrar na humilde residência de uma aluna exemplar cuja renda familiar a coloca na galeria dos habitantes em situação de vulnerabilidade social e miséria.
Em princípio, a vergonha que sentimos por um ou outro de nossos atos não nos exclui da convivência social. Ao contrário, ela nos convida a resgatar nossa dignidade com novas ações e a voltar para o mundo de cara lavada. Porém, há uma outra vergonha, radical, que pode nos afastar da coletividade, muitas vezes sem retorno: é a vergonha de quem somos.
Devido à equivocada correlação que geralmente se faz entre miséria e marginalidade, os bairros de periferia sofrem com o estigma da pobreza e, consequentemente, com a exclusão social de seus moradores, a qual se reflete na procura por uma oportunidade melhor de trabalho, nos comentários preconceituosos e na falta de interesse das empresas locais e, às vezes, até do próprio poder público por esses bairros. Dessa forma, os habitantes dessas localidades tentam negar a identidade de morador de periferia e acabam, assim, negando a sua própria identidade, sua história e o sentimento de pertencimento ao bairro, incorporando, por fim, o discurso de dominado e, muitas vezes, se deixando vestir com a carapuça da marginalidade e do menosprezo, imposta por uma “elite” que parece querer transformar a pobreza do povo em motivo de vergonha e exclusão social, induzindo a população mais humilde a sentir vergonha da sua própria condição de vida.
O fato é que ninguém nasce sabendo como será seu futuro, porém, durante seu crescimento físico, psicológico e social, começa a manter contatos com pessoas e situações diferentes, as quais irão proporcionar a construção e a identificação do indivíduo em sua personalidade, formação de caráter e escolha profissional. Diante deste quadro, a E. E. E. F. Dr. Mário Vieira Marques – CIEP, localizada numa área pouco favorecida do Município, vem fazendo um trabalho educacional no sentido de tentar reconstruir a imagem da escola e resgatar a autoestima e a dignidade dos alunos. Para tanto, temos oferecido atividades diferenciadas visando à ampliação do leque de possibilidades dessas crianças e adolescentes, mostrando-lhes perspectivas de futuro e formas distintas de atuar no mundo social, valorizando o respeito à individualidade e às diferenças e levando em consideração a identidade, a cultura e as diversas formas de expressão artística para a construção do sentimento de cidadania.
A Pedagogia e a Psicologia têm dado especial atenção aos estudos sobre a importância da afetividade na formação da autoestima dos estudantes. E falar em afetividade e autoestima é acreditar em uma educação com relevância social e, por conseguinte, em uma escola construída a partir do respeito às diferenças e da autonomia de ideias, com vistas à formação de cidadãos críticos, honestos e responsáveis. É somente a partir do conhecimento, da afetividade e do comprometimento que construiremos um futuro melhor, com pessoas cada vez mais humanas e completas em todos os seus aspectos: afetivo, social, cognitivo etc.
Dar oportunidade a essas crianças e jovens de mostrarem ao mundo do que são capazes é um dever de nós, educadores e cidadãos de bem. Afinal, na caminhada da “diferença”, tanto na sociedade como na escola, muitas histórias silenciadas merecem vir à tona.

(*) Luciana Crespo Dutra – Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ.  

Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ. 

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