02/12/2013 às 13:46
"Tudo novo de novo”

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente."

Está certo Carlos Drummond de Andrade, mas o milagre da renovação, no entanto, não se dá pura e simplesmente com a troca de um número no calendário. O milagre da renovação se dá, de fato, com a nossa predisposição para se despir daquelas quinquilharias que nos sobrecarregam.

Todas as culturas que têm calendários anuais celebram o "Ano-Novo". A celebração do evento é também chamada de réveillon, termo oriundo do verbo francês ‘réveiller’, que, em português, significa "despertar". O problema é quando entramos no púbere ano carregando ainda velhos e prescindíveis hábitos.

Fazemos mil simpatias à espera de um milhão de milagres. Vestimos branco para ter paz, amarelo para não faltar dinheiro, verde para não-sei-o quê, e eu fico a me perguntar: qual será a cor de dentro? Que cor a nossa alma estará vestindo?

Comecemos olhando para o passado recente… O que foi feito deste ano? Nós fizemos sentido?
Sorrimos com alguém? Descobrimos algo de novo? Tentamos ser pessoas melhores? Trabalhamos por uma causa em que acreditamos? Abraçamos efusivamente? Olhamo-nos introspectivamente no espelho? Programamos aquela viagem inesquecível? Esforçamo-nos para concretizar um grande desejo? Se a maior parte das nossas respostas foi um sonoro “não”, então está explicado! Um ano novo não começa para quem não é capaz de se fazer NOVO.

Jean-Paul Sartre já dizia que “o homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo”. Destarte, agora é o lugar que se faz, o tempo que se escolhe e o espaço que se cria. O resto é tendencioso. O próximo ano não compete ao calendário; o imediato minuto não pertence ao relógio. Nomes e números são apenas reflexos do que é feito neste instante. E a única certeza que temos é de que viver os sonhos é bem melhor do que apenas idealizá-los.

Recorro, portanto, mais uma vez às sábias palavras de Drummond para deixar aqui meus sinceros votos a todos nós, seres humanos por vezes desumanizados: "Para sonhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano-Novo cochila e espera desde sempre."


(*) Luciana Crespo Dutra – Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; colaboradora do Jornal A Notícia; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ.  
 

Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ. 

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