11/06/2014 às 10:34
A arte de transgredir

Transgredir é preciso. E, convenhamos, muitas vezes também necessário. Afinal, não há descoberta sem transgressão.

Tenho predileção por personagens que fogem do senso comum, de personalidades históricas ou indivíduos comuns que ousam romper com o convencional. Não quero, com isso, fazer apologia à indisciplina, à anarquia ou à delinquência, mas admiro figuras que, motivadas por valores superiores, ousam sair da zona de conforto da normalidade e da mesmice, transgredindo principalmente convenções sociais.

A história está repleta de transgressores que alavancaram o progresso. O filósofo grego Sócrates, por exemplo, transgrediu, por volta do século V a.C., ao propor uma nova forma de viver através da busca incessante de si mesmo, ou seja, do autoconhecimento que liberta do preconceito e da ignorância. O fato é que a evolução está diretamente relacionada à transgressão das regras vigentes e, se o homem não quebrasse com os conceitos tradicionais, até hoje estaríamos vivendo na era pré-histórica. 

Pode até parecer estranho pensar em uma ética da transgressão, entretanto, sem ela haveria uma forte tendência à estagnação, tanto no campo individual quanto coletivo. Mas o que seria o ato de inovar senão uma atitude totalmente transgressora? O fato é que a transgressão é algo absolutamente necessário para o desenvolvimento humano. Inovar nada mais é do que transgredir o que está estabelecido, em alguns casos, há séculos.

A própria arte, em suas diversas formas de manifestação, está constantemente transgredindo, provocando, tirando as pessoas da zona de conforto e, muitas vezes, trazendo-as para realidades diferentes. E, assistindo a uma palestra do escritor e jornalista Fabrício Carpinejar, que falava e interagia com adolescentes e jovens acerca do problema do bullying, tive mais certeza ainda da importância do ato de transgredir para se chegar a um intuito maior.

Na ocasião, o autor, que participava de uma caravana percorrendo diversas cidades do interior gaúcho com o objetivo de combater o bullying no estado, abordou os temas que mais motivam as discriminações no ambiente escolar: homofobia, preconceito racial e padrões de beleza. No entanto, para atingir seu público-alvo, Carpinejar chocou muita gente ao lançar mão do humor e da ironia pra falar, em entrelinhas, sobre assuntos que ainda são tabus para muitos. A ideia central defendida pelo escritor era desafiar o preconceito e, como ele mesmo disse, para isso “não há melhor golpe que a linguagem, uma vez que usar o senso de humor desarticula qualquer vexame”.

A palestra, que fazia parte do projeto “Educar Sem Discriminar”, numa iniciativa da Secretaria de Estado da Educação (Seduc) em parceria com a Secretaria da Justiça e dos Direitos Humanos, parece ter desconsertado muita gente, inclusive alguns colegas de profissão, que se sentiram constrangidos e julgaram o linguajar despojado e ácido inapropriado para um público composto, em sua maioria, por estudantes dos ensinos fundamental e médio. Embora entenda e respeite a posição de alguns colegas, não posso negar que aquele episódio me incomodou e me reportou imediatamente à obra A Alma Imoral, de Nilton Bonder. No livro, há um trecho em que o rabino Elimelech faz uma pergunta a seus discípulos:

“Sabem qual é a distância entre o Ocidente e o Oriente? Diante do silêncio, o rabino prosseguiu: 'Uma simples volta'. Transgredir é um processo, e o momento em que nos voltamos para outra direção marca um novo segmento de nossas histórias individuais e coletivas. O corpo e sua moral, por sua vez, percebem esse ato como uma 'desorientação'. No entanto, transgredir é necessário”.  O rabi Bunan (Buber, Late Masters, p. 257) adverte que os 'pecados' que um indivíduo comete não são o pior crime realizado por ele. O verdadeiro grande crime do ser humano é que ele pode dar-se 'uma simples volta' a qualquer momento, mas não o faz.” 

O fato é que, na trajetória da sobrevivência, o ”convencional”, ou melhor, o “conveniente” geralmente é o caminho mais curto e também, aparentemente, o mais fácil. Entretanto, para alçar voos mais altos, muitas vezes é preciso ir de encontro ao óbvio, transgredindo e inovando com um dado propósito, e não o fazendo de maneira aleatória. Afinal, como disse o próprio Carpinejar, o conhecimento liberta a transgressão, mas a transgressão só funciona se você sabe o que está fazendo. E Fabrício sabia...
 

Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ. 

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