05/08/2014 às 09:35
Reminiscências paternas

“Não me cabe conceber nenhuma necessidade tão importante durante a infância de uma pessoa que a necessidade de sentir-se protegido por um pai”. (Sigmund Freud)

A primeira lembrança certa e forte que tenho do meu pai é do dia em que minha mãe fora para a maternidade ganhar minha irmã do meio, e ele me levara, contrariada, para a casa da minha avó, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Eu tinha, mais ou menos, dois anos e meio de idade. É como se a história dele começasse ali para mim. Ficou gravada a imagem de meu pai tentando me explicar o porquê da ausência da minha mãe naquele momento, e eu, inconsolável, vendo as ruas passarem pela janela do ônibus e me sentindo, contraditoriamente, desolada e protegida em seu colo.
As muitas memórias que seguem são de alegrias. Lembro-me dele brincando conosco na paria, durante as férias de verão, ensinando-nos a boiar e a nadar no mar; desenhando com a gente na mesa de mármore que havia na pequena sala do apartamento; ajudando-nos a fazer os deveres da escola; levando-nos aos bailes infantis de carnaval; torcendo pela Mangueira, que também se tornaria minha escola de samba do coração; ensinando-nos a andar de bicicleta; ouvindo a boa música brasileira; deixando que penteássemos seus cabelos lisos; ajudando a montar os saquinhos com doces para distribuir às crianças no dia de São Cosme e Damião; e levando-nos de carro, sempre ao som de belas melodias, para passar os finais de semana na casa dos meus tios e avós paternos.
Recordo-me também do barulho da máquina de escrever que ele usava para datilografar os cartões de agradecimento aos nossos professores, em homenagens sempre idealizadas e organizadas por minha mãe. Aliás, meus pais nunca pouparam esforços para dar-nos uma boa formação. Nessa época, era ele também quem encapava os nossos livros e cadernos escolares, e tenho de confessar que nunca aprendi a fazer tal tarefa com a sua exímia perfeição.
Durante minha infância, ficar com ele sempre foi leve, alegre, tinha um sabor de aprendizado. Um mundo repleto de musicalidade, valores éticos e algumas interessantes leituras que iriam me influenciar pelo resto da vida. Houve um tempo, porém, em que pensei odiar meu pai. Eu era uma adolescente com personalidade forte, uma jovem com algumas ideias próprias, bem diferentes das dele, e uma justificada revolta contra um mundo contraditório e injusto que só então começava a se descortinar. A descoberta da realidade foi, sem dúvida, um choque. E, naquele tempo, por razões que só mais tarde pude compreender, algumas vezes me desentendi com meu pai.
Há pouco mais de cinco anos, Clarissa nasceu, transformando a filha em mãe e o pai em avô. Talvez por isso, a força das primeiras sensações, que permanecem em nós, diluídas, delicadas e sutis, tenham vindo à tona com tanta intensidade. Afinal, os primeiros contatos com um filho têm, de fato, uma força voraz, magnética, implacável, uma verdade instantânea que me remeteu à sensação dos meus primeiros momentos com meu pai.
Os anos e o amadurecimento próprio dos caminhos da vida me mostraram o que eu, na minha inocência pueril, já sabia: meu pai, com todo aquele volume de conhecimentos, de atitudes ponderadas e sensatas, de carinho e de amor, é e sempre foi um homem cheio de virtudes, que dedicou e continua dedicando sua vida à família.
Hoje, apesar da distância, ele vive comigo nos lugares por onde ando, nas músicas que ouço, nas decisões que tomo e nas inúmeras perguntas que ainda me faço, pois carrego em mim sua herança, sua proteção, sua influência e seu exemplo de ilibada e presente paternidade.
Obrigada, pai! 

Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ. 

Comentários

Mais posts de Luciana Crespo Dutra