31/12/2014 às 09:31
Além do próprio umbigo


Luciana Crespo Dutra*

Já faz uns quatro anos. Foi num final de dezembro… Aturdida entre minhas divagações e afazeres, eu caminhava apressada pelo centro da pequena e acolhedora São Luiz Gonzaga, quando, de súbito, fui tomada pela sensação de susto ao ser abraçada por uma menina que surgiu abruptamente do meio do lixão que cobria uma carroça empurrada, a duras penas, por um grupo de catadores.

Ainda me recompondo do sobressalto, fui tomada por um misto de felicidade e gratidão ao receber um beijo daquela criaturinha que, envolta pela sujeira, se abria para mim num sorriso inocente que parecia iluminar, por um breve instante, aquela trágica realidade social. Como, sabiamente, escreveu Guimarães Rosa, “a felicidade se acha é em horinhas de descuido...”.

– “Mãe, mãe! Essa é professora nova lá da escola – gritava a guriazinha empolgada.

Aquela cena inesperada, que me tocou de uma maneira tão dilacerante, foi um divisor de águas em minha vida profissional. Foi só então que percebi que tinha me encontrado. Fazia pouco mais de um mês que estava ministrando aulas de Língua Portuguesa e Produção Textual na E. E. E. F. Dr. Mário Vieira Marques – CIEP, e, naquele instante, tive certeza de que meu lugar era lá, naquela escola de periferia estigmatizada pela pobreza e pela vulnerabilidade social.

Ali, bem à minha frente, eu vislumbrava a vivacidade de uma fotografia de Sebastião Salgado ou uma personagem do excepcional documentário “Lixo Extraordinário”, em que o artista plástico brasileiro Vik Muniz, preocupado com as questões sociais, decide se aventurar pelo Jardim Gramacho, o maior lixão aberto do mundo, e mergulhar na vida dos catadores, a fim de dar rosto e voz a seres humanos que vivem justamente daquilo que a sociedade descarta, sociedade esta que teima em não querer enxergar a maneira como vivem os indivíduos que integram as classes da parte mais baixa do estrato social.

A essa altura, foi inevitável me lembrar do personagem Tião, que, no documentário, dá um depoimento comovente ao recordar passagens do livro” O Príncipe”, de Maquiavel, que ele encontrou no lixão, levou para casa e devorou, assim como trechos da obra de Nietzsche. Aliás, este filme deveria ser programa obrigatório para todos os brasileiros, principalmente para aqueles que acham equivocadamente que as pessoas menos favorecidas não têm sonhos e objetivos. Afinal, é uma lição espantosa de humanidade, coragem, honestidade, sacrifício e disposição de encarar e vencer todas as adversidades, por mais assustadoras que possam parecer.

Acima de tudo, o filme escancara o egoísmo de parte da sociedade que nem sempre entende a importância de programas como o Bolsa-Família, cotas nas universidades ou bolsas para estudantes, que dão oportunidade e esperança para cidadãos que nunca tiveram nada, mas que desejam alçar novos voos. O documentário deu àquelas pessoas, que lutam dia a dia pelo lixo que produzimos, a solidariedade que anda tão escassa nestes complicados tempos de valores descartáveis. 

Hoje esse episódio me veio à memória e, prestes a iniciarmos um novo ano, desejo que sejamos sempre movidos pelo desejo de conhecer o que há além... além das aparências, além do óbvio, além do que não conseguimos enxergar seja por preconceito, seja por ignorância ou por falta de humanidade.

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(*) Luciana Crespo Dutra – Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ.  

Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ. 

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